Direto da rede

27 maio
 

Palhaças lendo

O que é ser palhaço, afinal???

 
Recebi um email esta semana que me deixou feliz e intrigada. Veio diretamente de uma participante do Núcleo de Pesquisadores de Teatro de Rua, grupo do qual participo via Yahoo grupos e no qual venho me integrando devagar. Divulguei o site da pesquisa por lá e recebi contribuições, incentivos e um apoio muito importante. O email que transcrevi aqui é de Jussara Trindade. Ela teceu questionamentos, os quais acredito que merecem ser discutidos aqui. Vejam:
 
“Oi, Andrea!
Li os seus textos sobre o “método flaneur” e o histórico da pesquisa e achei tudo muito bom. O universo do palhaço é ainda muito pouco pesquisado em profundidade e parece que essa é a sua intenção – vá em frente, porque aí tem muito, muito material pra pesquisa. As suas experiências têm um potencial enorme, há vários temas importantes que vc aborda e que merecem aprofundamento.
Por exemplo, quando vc descobre que o palhaço é um ator é super importante. O que te fez descobrir isso? E o que muda, depois disso? 
A questão da formação do ator palhaço também; como se “ensina” alguém a ser palhaço? Pode ter toda aquelas técnicas, que podem ser treinadas e tal, mas o que vc sentiu na rua (naquele exercício que vc descreve) é essencial, um aprendizado que passa por outros lugares do ser, para além de qualquer técnica.
É maravilhoso que haja pesquisadores que, como vc fez, tenham a coragem (mesmo com o medo que vc relata) de se desnudar diante do público – mas, principalmente, diante dos seus pares – ou seja, para nós, seus companheiros de teatro! 
Quero te parabenizar e te incentivar a prosseguir as suas pesquisas, que são da maior importância pra todos do teatro de rua. E também sugiro que vc use os seus conhecimentos de terapeuta pra fundamentar teoricamente os sentimentos que afloram no trabalho do palhaço (claro, só depois de viver tudo o que tem que ser vivido, sem a cabeça atrapalhando. ..)
Bjs,
Jussara Trindade”
 
Que presente você me deu, Jussara!
O palhaço é um ator…. Como escrevi no Histórico da pesquisa, passei por um absoluto encantamento diante dos Palhaços Trovadores, grupo onde constatei essa realidade. Não só porque eu já gostava de palhaços, mas principalmente porque a figura do palhaço ficou mais próxima de mim. Por detrás do nariz, estava gente de teatro, que eu conhecia.
Entendi o palhaço como ator porque compreendi que aquela arte podia ser aprendida, era fruto de trabalho e esforço. Além disso, já havia conhecido o treinamento necessário para usar uma máscara e entendido que ela exige um aperfeiçoamento de quem usa. Quando soube que o nariz de palhaço é a menor máscara do mundo, comecei a enxergar também a pessoa por detrás dela, o trabalho para usá-la e a transformação em um personagem, que, na verdade, não é personagem, é a dilatação do próprio ator, ele em exagero.
Não sei se todo palhaço é ator. Palhaço é palhaço. Tenho minhas dúvidas se o palhaço é ator, sempre. Palhaços não precisa ser ensinado para existir. As técnicas são acessórios, só isso. Se não, o palhaços de circo que conheci e aqueles que povoaram meu imaginário não seriam palhaços- imagino que poucos deles ou nenhum fez escola de teatro, se bem conheço a tradição circense. Contudo, não posso dizer que não há um trabalho por detrás da máscara, porque creio que ele sempre existe. Um trabalho que significa aprendizado, às vezes instintivo, às vezes por tradição, e que exige um esforço de quem está por detrás do nariz. Isso sempre ocorre, consciente ou não, com qualquer um, imagino eu.
Eu nos chamo a todos de artistas. 
Agora, existem atores palhaços. E isso muda para mim porque, como disse anteriormente, os aproxima da minha realidade. Compreendo também que algumas teorias que aprendi sobre o teatro valem para o palhaço também. Outras, não. Ele tem regras próprias. Fica valendo, porém, o que entendo que seja trabalho do ator para os atores que desejam, como eu, ser palhaços: suor, treino, aprendizado de sua arte.
E, de fato, ninguém “ensina” outro a ser palhaço. Isso, eu penso que a gente descobre. Quem dera alguém pudesse ter me ensinado tudo o que preciso! Não seria o projeto de palhaça que sou, já teria aprendido o que sei que levarei anos para descobrir e faria qualquer um rir com a simples aplicação de técnicas…. Seria bem menos apaixonante, também.
As técnicas são meros acessórios, apetrechos, que podem ajudar, se quisermos. Mas também se não quisermos não precisa. Vamos criar nossas próprias regras, decorrente da descoberta e do prazer de ser palhaço.
Sim, no fundo é isso. Brincar, sentir prazer na arte. Se isso inclui a técnica, ótimo. Eu acho que elas me ajudam bastante, as técnicas viram parte de uma grande brincadeira que vivencio na rua…. Mas se não inclui, o que julgo super normal, é bom amassar e jogar fora ou guardar numa prateleira, até que sirva.
 
Obrigada, Jussara. Você me fez pensar um tantão e ainda me dá a sensação maravilhosa de que tem gente por perto. Sempre bom, sempre bem vindo. 😉
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Uma resposta to “Direto da rede”

  1. marton maués 28/05/2010 às 12:06 #

    menina, jávou eu, de novo, fazer comentário – mania de não ficar calado. kkk
    para mim, é bem claro, não há dúvidas, que o palhaço é um ator, intérprete, farsante, hipócrita, estrião, parlapatão, brincante, performe… tds esses sinônimos que identificam o artista da cena. ele não interpreta um personagem, ele interpreta a si mesmo, expões seu ridícula, dilata e delata (revela)o que quer esconder, o que tds querem esconder? sim. mas atores tb não fazem isso? não existem atores que acreditam num teatro que seja feito por ele enquanto ser e não enquanto o intérprete de um personagem hamelt qualquer? aquele que expões suas verdades, suas histórias, sua vida? claro que existe. e ele deixa de ser ator por isso? claro que não. talvez apareçam denominações diferentes, diversas, mas que olhando bem, bem de perto, pareçam falar a mesma coisa, pareça, mais uma sinonímia.
    se ensina a ser palhaço? sim e não. se ensina a ser ator? sim e não. ensinar e aprender é sempre um processo, repleto de muitas vias, muitos caminhos, rotas repletas d eidads e vindas, circularidades, elipses.
    a professora maria sylvia nunes, que ensinou tanats gerações (oposentou-se pela escola de teatro da ufpa), diz sempre que não se ensina ninguéma ser ator. a pessoa nasce com talento e pronto. damos ferramentas para que esse talento se desenvolva. e eles, os atores, os intérpretes da cena, os palhaços, também forjam suas próprias ferramentas.
    e gira o mundo!
    bjs

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