9 jun

De volta ao blog, depois de um longo e tenebroso inverno….

E com um texto que acaba de sair do forno, escrito por uma amiga do Núcleo de Pesquisadores de Teatro de Rua, Jussara Trindade. Instigante, no mínimo, como disse a ela.

Concordo sobre a necessidade de referências estéticas próprias ao teatro de rua. Quanto mais específico for falar sobre o teatro que acontece na rua, mais nos reconheceremos em nosso fazer e o tornaremos reconhecido. Quem atua nesse lócus e é capaz de se reconhecer, se posiciona políticamente e consegue refletir de forma práxica sobre suas peculiaridades.
Aí vai o email:

 “Amigos do Núcleo de Pesquisadores de Teatro de Rua,

 No último fim-de-semana (dias 05 e 06/06/10) estive na 1ª Mostra Regional de Artes Cênicas da FETEG (Federação de Teatro do Estado de Goiás), realizada na cidade de Jaraguá (GO). Tive o privilégio de participar do debate “Coletivos Cênicos – grupos, redes e núcleos de pesquisa” na mesa-redonda ao lado de Chico Pelúcio (Grupo Galpão), Licko Turle (Ta Na Rua) e o mediador Alexandre Silva Nunes (diretor da Escola de Teatro da Universidade Federal de Goiás). Foi uma mostra que incluiu Dança e Circo, além do Teatro de Rua propriamente dito Este convite foi muito importante para o estreitamento das relações entre o Núcleo de Pesquisadores e a academia (no caso, a UFG) na região Centro-Oeste. Percebi um desejo de aproximação, de estabelecer contato e conhecer mais profundamente o “nosso objeto”. Tenho certeza de que colheremos frutos desse contato!

Mas, além de fazer este breve relato, eu gostaria de compartilhar com todos algumas coisas que reafirmam algumas das minhas mais profundas convicções, as quais se fortalecem em cada encontro de que participo, cada vez que me vejo na delicada tarefa de falar sobre o Núcleo e o teatro de rua. 

Foi o seguinte: fazia parte da programação do evento uma “charla” com os artistas dos grupos, após os espetáculos apresentados em cada dia. Mediando e comentando, dois acadêmicos de teatro. Nesse dia, eram “Hoje é domingo”, do Grupo Solo de Dança, que apresentou um saboroso espetáculo de dança-teatro (como eles mesmos designam), e “Balanço”, do Grupo Independente. Ambos de Goiânia. O primeiro, dirigido por Tuim, um dos atores do Nu Escuro (grupo do nosso querido parceiro Hélio Froes), sob uma lona de circo montada em frente à Igreja de Jaraguá, escancarou irreverência, com muita criatividade, música e comicidade, esbanjando o mais puro jogo cênico de rua – mesmo não adotando este “título”! O segundo, em palco italiano, um exercício pleno da representação teatral, do ator maduro – um solo dramático em que o personagem (um homossexual) confidencia, com o público, momentos marcantes de sua vida. Um primor de atuação, de trabalho corporal, de colocação da voz no palco (num dado momento de queda o microfone que usava parou de funcionar, mas o ator continuou sem problemas). Ou seja, dois espetáculos absolutamente opostos e excelentes, cada um ao seu modo. Fomos à charla…

Dois mediadores, acadêmicos de teatro (uma professora especialista em Laban, e o outro não lembro, acho que professor de Interpretação), iniciaram o debate. Depois que os dois grupos apresentaram um histórico de suas trajetórias, deu-se início aos comentários, estimulados pelos mediadores. Ambas as apresentações foram elogiadas etc etc, mas aos poucos evidenciou-se o maior interesse (dos mediadores e da platéia) no trabalho do ator e, portanto, do espetáculo “Balanço”. O grupo de Dança ficou praticamente esquecido, ouvindo os elogios dirigidos ao ator, e as respostas deste às várias perguntas sobre sua formação no Odin Teatre, sua pesquisa de linguagem corporal com as danças dos Orixás, etc. Apenas quando um dos organizadores sinalizou para o horário de encerrar a “charla” é que a mediadora virou-se e perguntou para os dançarinos: “vocês querem falar alguma coisa?”

Fiquei pensativa com o acontecido. Num primeiro momento, poderia parecer preconceito, preferência ou alguma forma de elitismo, por parte da academia em relação ao espetáculo de natureza mais popular. Não descarto essa hipótese, mas penso também que essa é a resposta mais fácil. Na verdade, que referências têm os acadêmicos, para aprofundar as questões relacionadas ao teatro de rua, ou simplesmente aos espetáculos que fogem aos temas comuns da “dramaturgia”, do “trabalho de ator” etc? Ainda não construímos nossas próprias referências estéticas, mas acho que está aí a base que pode sustentar um discurso forte, “em pé de igualdade” com a academia. Aprofundando nossas pesquisas (de trabalho do ator, de dramaturgia, de relação com o espectador etc), poderá surgir um tipo de comentário próprio ao “nosso objeto”, que não se limite às noções tradicionais da semiologia teatral, já que esta foi construída tendo em vista o espetáculo de palco.

No dia seguinte, era isso o que eu tinha em mente e foi que disse aos presentes, durante a mesa-redonda: o objetivo do Núcleo de Pesquisadores é, além de registrar e documentar as experiências dos fazedores teatrais de rua, é a construção de um corpo teórico de conhecimentos para o teatro de rua, a partir dos seus próprios parâmetros!

Estou cada vez mais convicta disso, e vcs?

Abraço saudoso a tod@as,

Jussara Trindade”

Assino em baixo!

Anúncios

2 Respostas to “”

  1. Fernanda 15/06/2010 às 17:34 #

    Olá, parabéns pelo belo blog!!! Uma iniciativa que contribui com todos nós rueiros do Brasil!!!
    Um beijo grande,
    Fernanda

    Grupo Mototóti
    Porto Alegre|RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: