Arquivo | julho, 2010

Sorteia no saco e vai!

27 jul

Foi o que ouvi do Cláudio Dídima, amigo de turma da especialização, palhaço, ator, maquiador…tanta coisa!  Enquanto expunha o estado em que minha pesquisa se encontra, submetendo à avaliação da turma de pós graduação, da professora Lia Braga e da minha orientadora (queridíssima Wlad Lima, grande parceira), o Dídima soltou uma pérola, que me deixou inquieta. Trata-se de sua história pessoal como palhaço, onde se inscreve um método de sair pela rua. Sortei-no-saco-e-vai!

Sua avó escrevia em diversos papéis alguns lugares aleatórios pela cidade. Depois, colocava-os dentro de um saco plástico, remexia, e pedia a cada um de seus netos que sorteassem um papel. O local sorteado determinava para onde iriam, vestidos de palhaço, naquele dia. E eles iam! Às vezes, até se arrumavam na rua.

“Não sei se serve pra você, disse ele, mas acho que tu poderias fazer isso, escrever um monte de lugares no papel, sorteia no saco e vai! Pesquisa por lá. Sei lá, só uma idéia”.

Não, Claudinho, não é só uma idéia. Está girando na minha cabeça, me atravessando. Quem sabe se ainda conseguirei deixar para lá…

Quem sabe não fica? Quem sabe adapto (várias feiras, ao invés de vários lugares aleatórios?)? Quem sabe?

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Eu tive um sonho

27 jul

A imagem do palco

Eu chorava copiosamente sobre a cadeira, olhando para o palco, com medo de ter de deixar meu nariz vermelho para depois…

Clown me in! (Me inclua na palhaçada)

23 jul
Idea

Idea

Belém está fervilhando. O VII Congresso Mundial do Idea trouxe à cidade o mundo inteiro. Já conversei com coreanos, palestinos, dinamarqueses, sul africanos… Uma Babel harmônica, se for possível. Tive a oportunidade de participar de um Workshop de clown interessante e, no mínimo, revigorante. Chama-se Clown me in (me inclua na palhaçada, como foi traduzido no evento, mas não gostei desta tradução) e foi ministrado por Gaby e Sabine, duas artistas que ministram este workshop pelo mundo, pautadas sobre os estudos de Jacques Lecoq. Nenhuma novidade no que diz respeito aos princípios que eu já conhecia. Os jogos, porém, muitos deles novos para mim, foram excelentes para aperfeiçoar a arte e relembrar que o palhaço está em nós mesmos, é fruto da nossa sinceridade em nos expôr, mostrar o ridículo que há em todos nós, desnudado.

Aqui vai o blog onde elas divulgam o trabalho, com vídeos e fotos para quem quiser dar uma olhada: www.clownmein.com

Três linhas que me atravessam

22 jul

Esta pesquisa é costurada com três linhas. Parece absurdo, mas deparei-me com esta realidade através do contato com Suely Rolnik, em seu livro “Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo”. Viajem comigo e vejam se entendem.

Essas três linhas às vezes tornam-se duas, outras uma só. Sempre em movimento. Meu roteiro de ações ou metodologia é assim, cheio de reentrâncias, devires, afetos. Meu desejo funcionando em plenitude, provocando não um caos, mas uma fabricação incansável de mundo.

Quando falo em linhas, me remeto a descrição do traçado do desejo, de Rolnik. Desejo é movimento de afeto e a simulação desses afetos em máscaras, que os corporifica, territorializa. Neste processo, três são as linhas abstratas de movimento. A primeira, invisível e inconsciente, é a linha dos afetos, aqueles resultantes do encontro entre dois corpos; um fluxo, que não cessa de ser produzido. A segunda, bipartide, faz um movimento de vaivém, que territorializa (da produção de afetos para a composição de territórios) e desterritorializa (dos territórios para o invisível e inconsciente dos afetos escapando). A terceira linha é a dos territórios, finita, visível e consciente, que cria diretrizes para a consciência operar os afetos.

Minha metodologia é, a primeira vista, uma linha visível, um território delineado por um corpo de afetos que, no esforço de sistematização e cientificidade, necessitam ser organizados. Uma constelação funcional, que me permite olhar a experiência enquanto pesquisadora. O próprio trabalho como um todo designa um território a ser observado, nunca a totalidade da experiência. Isto me aquieta, porque alivia o medo do reducionismo. Meu roteiro é finito, tal como a terceria linha, e, por isso mesmo, é bom lembrar que sempre escaparão afetos aos território, o que, a qualquer hora, pode decretar o seu fim.

A cientificidade da pesquisa me exigiu a dureza da terceira linha, a segmentação, a operacionalização de cortes. Preciso dizer que sofro com isto, mas reconheço como presença inevitável e necessária. Mesmo assim, as outras linhas continuam por aqui.

Quando me perco do território, recaio na linha de fuga dos afetos, percorrendo o primeiro movimento. Esta linha sempre se entranha na pesquisa porque me debruço justamente sobre o encontro de corpos: de minha palhaça, Bilazinha da Mamãe, com o caos da rua. No encontro, são ainda produzidos outros corpos e os afetos resultantes desse eterno “encontrar-se” me atravessam, como o fazem com o espaço urbano e com esta pesquisa.

Minha metodologia aceita as fugas e, portanto, compreende que tudo modifica-se, movimenta-se, improvisa. Um devir do campo social, a  partir do qual a realidade pode ser outra. “De repente é como se nada tivesse mudado e, no entanto, tudo mudou” (ROLNIK, 2007, p. 50).

Enquanto me territorializo e desterritorializo, me encontro na angústia da segunda linha, ambígua. Por vezes, minha escrita vai da invisível e inconsciente produção de afetos, para a visível e consciente produção de territórios. De minhas intensidades na rua, para o enquandramento nos cortes e segmentações. Em outros momentos, faz o caminho inverso, parte do roteiro para a improvisão, me contamino pelas intensidades de ser palhaça no encontro com os corpos. Do território, para os afetos escapando. Difícil saber de onde parto e aonde chego. Estou no meio, em rizoma.

Linhas