Arquivo | janeiro, 2011

Pelas Ruas da Cidade

25 jan

Em meus passeios pela Rede de Pesquisadores em Teatro de Rua, da qual estive afastada por longo período, mas retornei com todo gás, encontrei uma jóia. Trata-se do relato de Richard Riguetti, do Grupo Off-Sina, do Rio de Janeiro. Em uma empreitada do Projeto Pelas Ruas da Cidade, o grupoe esteve em duas cidades do interior do Rio de Janeiro, fazendo teatro de rua. O relato, divulgado na rede, é interessantíssimo e, embora não tenha pedido autorização para publicá-lo aqui, não pude evitar. Parabéns ao grupo Off-Sina e desculpem a intromissão…

Vejam, abaixo, o que diz quem passa por esse campo de intensidades que é a rua.  

“Olá companheiros e companheiras,

 O Projeto Pelas Ruas da Cidade, do Off-Sina, circulou por 2 cidades da Baixada, nesse final de semana.

A primeira cidade foi Japeri, com apenas 10 anos de existência, foi fundada em 30 de junho de 1991. Desde então, a localidade tem experimentado os desafios da autonomia política. Os prefeitos e as legislaturas que governaram o município não conseguiram barrar o crescimento desordenado, prevalecendo ainda problemas com trânsito, transporte, água e esgoto, habitação, e principalmente educação. Moradores apontam como causa principal dos problemas locais a inépcia para o interesse público e a corrupção. Com aproximadamente 102.000 habitantes, Japeri encontra-se quase a última estação da Estrada de Ferro Central do Brasil. Principal meio de transporte dos trabalhdores, que na sua maoiria trabalham fora da cidade. Transformando Japeri em uma cidade dormitório. É um dos piores Índices de Desenvovimento Humano, ocupando a 78º lugar, entre as 92 do Estado (Wikipédia).

O grupo convidado da cidade foi o Grupo Código que apresentou o espetáculo intitulado “O trem nosso de cada dia”.  Hoje é ponto de cultura e começou suas atividades tetrais com o Nós do Morro (com o Gutti do morro do Vidigal). A apresentação foi feita na Quadra do Bélem. E como tinha uma estrutura de palco feita de concreto, o grupo Código tinha pensado em se apresentar nele. Depois que colocamos o Circo Pinico Sem Tampa no chão, dentro da quadra, eles decidiram não fazer mais no palco e ai começou uma interação incrível entre o OFF-SINA e o CÓDIGO.

Com apenas 2 bancos de madeira simulando o vagão de trem , o grupo Código desenvolveu por 20 minutos uma cena com consistência dramaturgica, rara de ver hoje dia, pois o que se vê é a Egoturgia, um coletivo preparado e bem treinado, com um vies de humor ácido tão necessario nas condições em que a cidade se encontra (abandono total do poder público) e com muita criatividade. Combinamos de trazer o grupo em março para o Rio de Janeiro e apresentar em conjunto no Largo do Machado. Acretido que assim eles irão poder medir a força do teatro que eles estão fazendo. Embora não se considerem um fazedores de Teatro de Rua, ficaram bastante mobilizados em práticar mais essa linguagem, pois sentiram que podem potencializar as ações do grupo na cidade sede.

A segunda cidade foi Paracambi, a última estação de trem , depois de Japeri. Com 47 mil habitantes, a cidade é dormitório e tem o trem como principal meio de tranporte. Fica a 76 Km do Rio de Janeiro.Lá não encontramos nehum grupo de teatro de rua, entaõ optamos em convidar um Bloco de Carnaval Maluco Sonhador que realiza um trabalho com os usuários, familiares e amigos da Saúde Mental de Paracambi. Eles são visinhos do maior Hospital Psiquiatrico da America Latina, o Dr Eiras e como o regime agora é semi aberto, os usuários ficam pelas ruas da cidade. É de extrema importância social os serviços prestados pela Casa de Saúde em Paracambi, não só pelo atendimento médico hospitalar aos seus 1.600 internos, todos amparados pelo Sistema Único de Saúde ( SUS ), sendo 60% deles totalmente abandonados pelos parentes, sem nenhuma condição de retorno ao seio da família; mas também pelo fato da maior parte de seus 719 funcionários serem moradores de local, o que evidência a importância da criação de empregos diretos e indiretos gerados em função da Casa de Saúde.

A apresentação do espetáculo se deu em uma pequena faixa de grama entre o canal de esgoto aberto e a rua Jonas Leal, em frente ao Ponto de Cultura Maluco Sonhador. Mais de 100 pessoas acompanharam atentatamente a programação, sendo 80% eram pacientes do Dr. Eiras. Foi o dia do lançamento do samba enredo do Bloco Maluco Sonhador. E bota maluco nisso e bota sonhador na parada. Porque é tora!  Para nós do Off-Sina foi uma experiência e tanto estar tão proximo da loucura e do sonho em fazer dos pacientes, familiares e amigos uma ação de cidadania. Afinal, quem é louco?

No proximo final de semana vamos circular por Duque de Caxias e Nilópolis.

Pelas Ruas da Cidade – I Edição, é resultado de uma das lutas tavadas pela RBTR que conquistou o Edtial Artes de Rua, em 2008.

Vamos em frente que a Baixada é grande!

Abraços,

Richard Riguetti

Grupo Off-Sina”

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Livro de Ermínia Silva

25 jan

Aos amantes da arte e do circo, descobri hoje que o novo livro de Ermínia Silva, Respeitável Público… O Circo em Cena, está disponível para download gratuito no site da Funarte.

Basta visitar o endereço ao lado: http://www.funarte.gov.br/edicoes-on-line/ 

Recomendo!

Bjs

Conversas com Wlad Lima

21 jan

Wlad Lima, minha orientadora de longas conversas

Não tem jeito. A pesquisa continua mesmo. Estou afetada pelo meu desejo, ele pulsa, me obriga a ir adiante. Não sigo só. Tenho diversos companheiros, mas um deles tem sido fundamental para seguir em frente. Minha orientadora, Wlad Lima, comprou minha loucura e segue comigo com uma paciência invejável.

Tivemos orientação hoje. Conversamos um monte sobre paixões, teatro, família. Repassei os escritos que já tenho e as idéias para seguir pesquisando. Eis as orientações básicas que compartilhamos:

– Apropriar-me melhor dos conceitos, brincar com eles, entremeá-los. Pensando agora, esta sempre foi uma dificuldade pessoal. Agora é preciso voltar a enfrentá-la…

– Escrever o texto final. A brincadeira de fazer o texto pronto, como se fosse mesmo a versão final, preocupando-me com todas as partes e com a inserção da pesquisa de campo. Baita desafio. Vamos melhorar devagar o que for sendo escrito. Das fotos, cuidamos depois.

Longa conversa tivemos hoje. Muito trabalho pela frente. Quem caminha junto, no entanto, tem menos probabilidade de se perder.

Mãos a obra!

Linhas, cartografias…

21 jan

Enquanto vou me encontrando, bem devagar, em minha metodologia, deixo aqui os primeiros escritos. Digam o que acharam:

Esta pesquisa é costurada com três linhas. Às vezes tornam-se duas, outras uma só. Sempre um movimento. Meu roteiro de ações ou metodologia é assim, cheio de reentrâncias, devires, afetos. Meu desejo funcionando em plenitude, provocando uma fabricação incansável de mundo, que é o contrário do caos.

Quando falo em linhas, me remeto a Rolnik (2007), quando descreve o traçado do desejo. Desejo é movimento de afeto e a simulação desses afetos em máscaras, que os corporifica, territorializa. Neste processo, três são as linhas abstratas de movimento do desejo. A primeira, invisível e inconsciente, é a linha dos afetos, aqueles resultantes do encontro entre dois corpos; um fluxo, que não cessa de ser produzido. A segunda, bipartide, faz um movimento de vaivém, que territorializa (da produção de afetos para a composição de territórios) e desterritorializa (do visível, consciente, para o invisível e inconsciente dos afetos escapando). A terceira é a dos territórios, finita, visível e consciente, que cria diretrizes para a consciência operar os afetos.

Minha metodologia é uma linha visível, um território delineado por um corpo de afetos que, no esforço de sistematização e cientificidade, necessitam ser organizados. É necessário criar uma constelação funcional, que me permita olhar a experiência enquanto pesquisadora. O próprio trabalho como um todo designa um território a ser observado, nunca a totalidade da experiência. Isto me aquieta, porque alivia o medo do reducionismo, de resumir demais uma experiência que não tem limites. Meu roteiro é finito, tal qual a terceria linha, e, por isso mesmo, é bom lembrar que afetos sempre escaparão aos territórios, a experiência sempre transbordará os limites desta metodologia e da própria pesquisa.

A cientificidade da pesquisa me exigiu a dureza da terceira linha, a segmentação, a operacionalização de cortes. Preciso dizer que sofro com isto, mas reconheço como presença inevitável e necessária. Mesmo assim, as outras linhas continuam por aqui.

Chamei a este capítulo de roteiro de ações. Um roteiro é um composto de diretrizes, para o palhaço ter em mente ao improvisar suas peripécias. Ele tem idéia do que irá fazer, de onde deve chegar. No entanto, perde-se no caminho, é livre para jogar com seu público, desviar sua rota e, então, encontrar-se novamente com o roteiro ali adiante. Ele, então, o conclui, nunca como idealizou, mas a sua maneira, a cada encontro com outros corpos, a cada afeto produzido. Isto acontece na pesquisa.

E, quando me perco do território, me desterritorializo na linha de fuga dos afetos, percorrendo o primeiro movimento. Esta linha sempre se entranha na pesquisa porque me debruço justamente sobre o encontro de corpos: de minha palhaça, Bilazinha da Mamãe, com o caos da rua. No encontro, são ainda produzidos outros corpos e os afetos resultantes desse eterno “encontrar-se” me atravessam, como o fazem com o espaço urbano e com esta pesquisa.

Para realizar a pesquisa, optei pela cartografia, não apenas como método, mas como o  exercício de um olhar e compreender meu objeto de estudo em sua complexidade. Encontrei na cartografia uma forma de produzir conhecimento científico, a partir de minhas marcas, na qual posso lidar com as ambiguidades. O mapa a ser traçado registra os processos decorrentes da experiência vivida, permitindo-se modificar, reconfigurar, tal como pontuam Deleuze e Guattari (1995, p.22):

 O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-lo como obra de arte, construí-lo como uma ação política ou como uma meditação. […] Um mapa tem múltiplas entradas contrariamente ao decalque que volta sempre ‘ao mesmo’ (DELEUZE, GUATTARI, 1995, p.22).

 

Avalio que o pensamento cartográfico favorece a abordagem deste objeto, na medida em que me auxilia a perceber não somente o visível, o que está imediatamente diante de mim, expandindo meu olhar para os fluxos invisíveis que se estabelecem nessa relação. Por isso, nesta modalidade de pesquisa, há lugar para o que escapa ao previsto e determinado.

Sobre o alargamento de meu olhar, de que tratei anteriormente, dialogo com Rolnik (1993), que explica essa expansão como uma violência vivida no corpo, resultado de um rompimento em seu equilíbrio, em seus contornos atuais, ao conectar-se com outros fluxos, os quais esboçam novas composições. Me vejo, assim, a exigência de criar um novo corpo, no que diz respeito a minha existência, modo de pensar, agir, sentir, que acolha essas marcas, esses estados inéditos produzidos em mim. Vivo este constante refazer quando vou para a rua de palhaça. Meu corpo de palhaça, em devir, sofre marcas evidentes e a experiência dessa composição me leva ao mapa para tentar alguma compreensão.

 “O pensamento é uma espécie de cartografia conceitual cuja matéria-prima são as marcas e que funciona como universo de referência dos modos de existência que vamos criando, figuras de um devir” (Rolnik, 1993).

Minha metodologia aceita as fugas e, portanto, compreende que tudo modifica-se, movimenta-se, improvisa. Um devir do campo social, a  partir do qual a realidade pode ser outra. “De repente é como se nada tivesse mudado e, no entanto, tudo mudou” (ROLNIK, 2007, p. 50). Eu sou outra, a rua é outra.

Enquanto me territorializo e desterritorializo, me encontro na angústia da segunda linha, ambígua. Por vezes, minha escrita vai da invisível e inconsciente produção de afetos, para a visível e consciente produção de territórios. De minhas intensidades na rua, para o enquandramento nos cortes e segmentações. Em outros momentos, faz o caminho inverso, parte do roteiro para a improvisão, me contamino pelas intensidades de ser palhaça no encontro com os corpos. Do território, para os afetos escapando. Difícil saber de onde parto e aonde chego. Estou no meio.

Um ser que não se governa

16 jan

Durante os meses em que minha pesquisa esteve caminhando a passos bem lentos (não posso dizer que parou….pulsava em mim, inspirava leituras e jamais deixou de ser minha paixão), tive uma grata companhia. Claudine Haroche, em “A Dimensão Sensível” (confiram meus fichamentos, ela anda por lá), com quem dialoguei vários dias e encontrei o mote para uma discussão que desejo compartilhar por aqui. É importante dizer que Haroche foi um achado de Wlad Lima, minha orientadora incansável, que emprestou-me o livro pouco antes de eu ter que me ausentar. Obrigada, Wlad!

Eis o que encontrei em Haroche: O PALHAÇO NÃO SE GOVERNA.

Haroche (2008) não teoriza sobre o teatro, tampouco sobre palhaços. Sua investigação interdisciplinar repousa sobre as formas de sentir no ocidente, a partir da análise de momentos históricos importantes, desde a sociedade de corte da Idade Média até a contemporaneidade. No entanto, Wlad e eu conseguimos encontrar aproximações com meu objeto de estudo. 

Um dos temas que permeiam sua discussão, a partir da análise das sociedades francesa e anglo-saxã nos séculos XVI e XVII, é a questão da civilidade e do governo de si.

“O governo de si é um componente essencial do poder, o mais seguro entrave à desordem, um fundamento do governo dos outros, o complemento necessário da lei.” (HAROUCHE, 2008, p.25). Em outras palavras, o corpo é um operador político e social, que, quanto mais se modera, demonstra se governar, se disciplinar, contribui para a manutenção da ordem e se apropria do poder sobre os outros.

A idéia de superioridade, poder, esteve associada nas sociedades de corte a um corpo disciplinado, uma postura de moderação. Ainda é possível perceber esta concepção hoje em dia, sob novas formas e justificativas, embora permaneça a premissa de que, a partir do controle de si, é possível controlar o outro. Controlar-se é, ainda, uma forma de defesa, de delimitação de si e suposto respeito ao outro.

“A postura, que estrutura, em profundidade, certo tipo de economia psíquica, certa forma de subjetividade, exalta um modelo fundamental de representação do sujeito. Ela é, sem dúvida, um dos elementos essenciais de uma antropologia histórica e política das formas do laço social nas sociedades ocidentais. O próprio termo elucida determinados modos de funcionamento cruciais. O que é, de fato, a ‘postura’? Uma capacidade, no sentido próprio da palavra: o corpo é um receptáculo fechado, ameaçado do interior e do exterior, pois o que põe em risco a ‘postura’ são os arroubos, os excessos, o que não se controla, o que não se governa em si próprio, mas também o ingovernável no outro e ainda as trocas, percebidas como uma ameaça à integridade, à identidade, à virtude de cada um” (HAROCHE, 2008, p. 34-35) 

Compreendo que o imperativo da moderação e delimitação de si está presente no cotidiano, em nossas relações sociais e formação subjetiva. Aprendemos a conter nossos gestos, nos escondemos por detrás de uma máscara social, procurando esconder nossas extravagâncias, nosso risível. Não convém ser sincero, abrir-se às relações com os outros, porque nos parece perigoso. Criamos uma couraça e aprendemos a desprezar e inferiorizar os gestos relapsos, os excessos. Este princípio eu conheci a vida inteira. Quando comecei a descobrir minha palhaça, entrei em contato com seu oposto.

Se o corpo que se governa é um entrave à desordem, o palhaço e seus movimentos livres, desmedidos, sem amarras sociais, é um ser que não se governa, não exerce poder sobre os outros. Sua lógica é justamente outra: a sinceridade, a ingenuidade, aquilo que temos todos nós, humanos, e nos esforçamos a vida inteira por esconder. Temos fraquezas e excessos, que o palhaço mostra sem medo, sem contenção, como um bufão. Ao invés de defender-se do outro, ele depende do público, permite e deseja que riam dele, joga e busca se relacionar o tempo inteiro.

“O clown é aquele que ‘faz fiasco’, que fracassa em seu número e, a partir daí, põe o espectador em estado de superioridade. Por esse insucesso, ele desvela sua natureza humana profunda que nos emociona e nos faz rir” (LECOQ, 2003, p.216).

O palhaço é ridículo, é um perdedor. E é perdendo que vence. Marton Maués (2004) explica que o clown é um ser que se mostra sem medo, se expõe da maneira como é, ingênuo, grotesco, engraçado, lírico, permitindo-se ver pelos fracassos e defeitos, para que os outros riam de seu ridículo. Na verdade, tudo o que um palhaço quer é o riso dos outros. Castro (2005) o define de forma simples, como a figura cômica por excelência, alguém de quem esperamos rir. E rimos porque nos identificamos com a humanidade desse ser, com o ridículo que há em todos nós.

Em um mundo onde parecer belo e bem sucedido é uma meta importante, onde exercer poder sobre os outros, ganhar dinheiro e ter subordinados é uma virtude, ser grotesco, excêntrico, sincero, é uma loucura. Essa loucura, no entanto, nos ensina sobre a vida. Precisamos dela, eu preciso dela.

O palhaço que não se governa, quando vai à rua, “palco dos medíocres”, como define João do Rio, torna-se, também, um medíocre. Assumindo sua inferioridade, desloca os outros para a posição de igual, transformando a ordem e o imaginário social. 

Um deleite para mim, que deixo para vocês degustarem…