Um ser que não se governa

16 jan

Durante os meses em que minha pesquisa esteve caminhando a passos bem lentos (não posso dizer que parou….pulsava em mim, inspirava leituras e jamais deixou de ser minha paixão), tive uma grata companhia. Claudine Haroche, em “A Dimensão Sensível” (confiram meus fichamentos, ela anda por lá), com quem dialoguei vários dias e encontrei o mote para uma discussão que desejo compartilhar por aqui. É importante dizer que Haroche foi um achado de Wlad Lima, minha orientadora incansável, que emprestou-me o livro pouco antes de eu ter que me ausentar. Obrigada, Wlad!

Eis o que encontrei em Haroche: O PALHAÇO NÃO SE GOVERNA.

Haroche (2008) não teoriza sobre o teatro, tampouco sobre palhaços. Sua investigação interdisciplinar repousa sobre as formas de sentir no ocidente, a partir da análise de momentos históricos importantes, desde a sociedade de corte da Idade Média até a contemporaneidade. No entanto, Wlad e eu conseguimos encontrar aproximações com meu objeto de estudo. 

Um dos temas que permeiam sua discussão, a partir da análise das sociedades francesa e anglo-saxã nos séculos XVI e XVII, é a questão da civilidade e do governo de si.

“O governo de si é um componente essencial do poder, o mais seguro entrave à desordem, um fundamento do governo dos outros, o complemento necessário da lei.” (HAROUCHE, 2008, p.25). Em outras palavras, o corpo é um operador político e social, que, quanto mais se modera, demonstra se governar, se disciplinar, contribui para a manutenção da ordem e se apropria do poder sobre os outros.

A idéia de superioridade, poder, esteve associada nas sociedades de corte a um corpo disciplinado, uma postura de moderação. Ainda é possível perceber esta concepção hoje em dia, sob novas formas e justificativas, embora permaneça a premissa de que, a partir do controle de si, é possível controlar o outro. Controlar-se é, ainda, uma forma de defesa, de delimitação de si e suposto respeito ao outro.

“A postura, que estrutura, em profundidade, certo tipo de economia psíquica, certa forma de subjetividade, exalta um modelo fundamental de representação do sujeito. Ela é, sem dúvida, um dos elementos essenciais de uma antropologia histórica e política das formas do laço social nas sociedades ocidentais. O próprio termo elucida determinados modos de funcionamento cruciais. O que é, de fato, a ‘postura’? Uma capacidade, no sentido próprio da palavra: o corpo é um receptáculo fechado, ameaçado do interior e do exterior, pois o que põe em risco a ‘postura’ são os arroubos, os excessos, o que não se controla, o que não se governa em si próprio, mas também o ingovernável no outro e ainda as trocas, percebidas como uma ameaça à integridade, à identidade, à virtude de cada um” (HAROCHE, 2008, p. 34-35) 

Compreendo que o imperativo da moderação e delimitação de si está presente no cotidiano, em nossas relações sociais e formação subjetiva. Aprendemos a conter nossos gestos, nos escondemos por detrás de uma máscara social, procurando esconder nossas extravagâncias, nosso risível. Não convém ser sincero, abrir-se às relações com os outros, porque nos parece perigoso. Criamos uma couraça e aprendemos a desprezar e inferiorizar os gestos relapsos, os excessos. Este princípio eu conheci a vida inteira. Quando comecei a descobrir minha palhaça, entrei em contato com seu oposto.

Se o corpo que se governa é um entrave à desordem, o palhaço e seus movimentos livres, desmedidos, sem amarras sociais, é um ser que não se governa, não exerce poder sobre os outros. Sua lógica é justamente outra: a sinceridade, a ingenuidade, aquilo que temos todos nós, humanos, e nos esforçamos a vida inteira por esconder. Temos fraquezas e excessos, que o palhaço mostra sem medo, sem contenção, como um bufão. Ao invés de defender-se do outro, ele depende do público, permite e deseja que riam dele, joga e busca se relacionar o tempo inteiro.

“O clown é aquele que ‘faz fiasco’, que fracassa em seu número e, a partir daí, põe o espectador em estado de superioridade. Por esse insucesso, ele desvela sua natureza humana profunda que nos emociona e nos faz rir” (LECOQ, 2003, p.216).

O palhaço é ridículo, é um perdedor. E é perdendo que vence. Marton Maués (2004) explica que o clown é um ser que se mostra sem medo, se expõe da maneira como é, ingênuo, grotesco, engraçado, lírico, permitindo-se ver pelos fracassos e defeitos, para que os outros riam de seu ridículo. Na verdade, tudo o que um palhaço quer é o riso dos outros. Castro (2005) o define de forma simples, como a figura cômica por excelência, alguém de quem esperamos rir. E rimos porque nos identificamos com a humanidade desse ser, com o ridículo que há em todos nós.

Em um mundo onde parecer belo e bem sucedido é uma meta importante, onde exercer poder sobre os outros, ganhar dinheiro e ter subordinados é uma virtude, ser grotesco, excêntrico, sincero, é uma loucura. Essa loucura, no entanto, nos ensina sobre a vida. Precisamos dela, eu preciso dela.

O palhaço que não se governa, quando vai à rua, “palco dos medíocres”, como define João do Rio, torna-se, também, um medíocre. Assumindo sua inferioridade, desloca os outros para a posição de igual, transformando a ordem e o imaginário social. 

Um deleite para mim, que deixo para vocês degustarem…

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Uma resposta to “Um ser que não se governa”

  1. Telma Monteiro 16/01/2011 às 21:52 #

    Adorei esse teu texto, especialmente a parte depois da citação da Haroche. Em alguns pontos, chega a ser comovente, lírico… Visualizei um clown escrevendo-o, sobrancelhas erguidas, olhos mt abertos… Ah, a doce arte d não temer o ridículo!
    Abrç silencioso…

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