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Livro de Ermínia Silva

25 jan

Aos amantes da arte e do circo, descobri hoje que o novo livro de Ermínia Silva, Respeitável Público… O Circo em Cena, está disponível para download gratuito no site da Funarte.

Basta visitar o endereço ao lado: http://www.funarte.gov.br/edicoes-on-line/ 

Recomendo!

Bjs

Um ser que não se governa

16 jan

Durante os meses em que minha pesquisa esteve caminhando a passos bem lentos (não posso dizer que parou….pulsava em mim, inspirava leituras e jamais deixou de ser minha paixão), tive uma grata companhia. Claudine Haroche, em “A Dimensão Sensível” (confiram meus fichamentos, ela anda por lá), com quem dialoguei vários dias e encontrei o mote para uma discussão que desejo compartilhar por aqui. É importante dizer que Haroche foi um achado de Wlad Lima, minha orientadora incansável, que emprestou-me o livro pouco antes de eu ter que me ausentar. Obrigada, Wlad!

Eis o que encontrei em Haroche: O PALHAÇO NÃO SE GOVERNA.

Haroche (2008) não teoriza sobre o teatro, tampouco sobre palhaços. Sua investigação interdisciplinar repousa sobre as formas de sentir no ocidente, a partir da análise de momentos históricos importantes, desde a sociedade de corte da Idade Média até a contemporaneidade. No entanto, Wlad e eu conseguimos encontrar aproximações com meu objeto de estudo. 

Um dos temas que permeiam sua discussão, a partir da análise das sociedades francesa e anglo-saxã nos séculos XVI e XVII, é a questão da civilidade e do governo de si.

“O governo de si é um componente essencial do poder, o mais seguro entrave à desordem, um fundamento do governo dos outros, o complemento necessário da lei.” (HAROUCHE, 2008, p.25). Em outras palavras, o corpo é um operador político e social, que, quanto mais se modera, demonstra se governar, se disciplinar, contribui para a manutenção da ordem e se apropria do poder sobre os outros.

A idéia de superioridade, poder, esteve associada nas sociedades de corte a um corpo disciplinado, uma postura de moderação. Ainda é possível perceber esta concepção hoje em dia, sob novas formas e justificativas, embora permaneça a premissa de que, a partir do controle de si, é possível controlar o outro. Controlar-se é, ainda, uma forma de defesa, de delimitação de si e suposto respeito ao outro.

“A postura, que estrutura, em profundidade, certo tipo de economia psíquica, certa forma de subjetividade, exalta um modelo fundamental de representação do sujeito. Ela é, sem dúvida, um dos elementos essenciais de uma antropologia histórica e política das formas do laço social nas sociedades ocidentais. O próprio termo elucida determinados modos de funcionamento cruciais. O que é, de fato, a ‘postura’? Uma capacidade, no sentido próprio da palavra: o corpo é um receptáculo fechado, ameaçado do interior e do exterior, pois o que põe em risco a ‘postura’ são os arroubos, os excessos, o que não se controla, o que não se governa em si próprio, mas também o ingovernável no outro e ainda as trocas, percebidas como uma ameaça à integridade, à identidade, à virtude de cada um” (HAROCHE, 2008, p. 34-35) 

Compreendo que o imperativo da moderação e delimitação de si está presente no cotidiano, em nossas relações sociais e formação subjetiva. Aprendemos a conter nossos gestos, nos escondemos por detrás de uma máscara social, procurando esconder nossas extravagâncias, nosso risível. Não convém ser sincero, abrir-se às relações com os outros, porque nos parece perigoso. Criamos uma couraça e aprendemos a desprezar e inferiorizar os gestos relapsos, os excessos. Este princípio eu conheci a vida inteira. Quando comecei a descobrir minha palhaça, entrei em contato com seu oposto.

Se o corpo que se governa é um entrave à desordem, o palhaço e seus movimentos livres, desmedidos, sem amarras sociais, é um ser que não se governa, não exerce poder sobre os outros. Sua lógica é justamente outra: a sinceridade, a ingenuidade, aquilo que temos todos nós, humanos, e nos esforçamos a vida inteira por esconder. Temos fraquezas e excessos, que o palhaço mostra sem medo, sem contenção, como um bufão. Ao invés de defender-se do outro, ele depende do público, permite e deseja que riam dele, joga e busca se relacionar o tempo inteiro.

“O clown é aquele que ‘faz fiasco’, que fracassa em seu número e, a partir daí, põe o espectador em estado de superioridade. Por esse insucesso, ele desvela sua natureza humana profunda que nos emociona e nos faz rir” (LECOQ, 2003, p.216).

O palhaço é ridículo, é um perdedor. E é perdendo que vence. Marton Maués (2004) explica que o clown é um ser que se mostra sem medo, se expõe da maneira como é, ingênuo, grotesco, engraçado, lírico, permitindo-se ver pelos fracassos e defeitos, para que os outros riam de seu ridículo. Na verdade, tudo o que um palhaço quer é o riso dos outros. Castro (2005) o define de forma simples, como a figura cômica por excelência, alguém de quem esperamos rir. E rimos porque nos identificamos com a humanidade desse ser, com o ridículo que há em todos nós.

Em um mundo onde parecer belo e bem sucedido é uma meta importante, onde exercer poder sobre os outros, ganhar dinheiro e ter subordinados é uma virtude, ser grotesco, excêntrico, sincero, é uma loucura. Essa loucura, no entanto, nos ensina sobre a vida. Precisamos dela, eu preciso dela.

O palhaço que não se governa, quando vai à rua, “palco dos medíocres”, como define João do Rio, torna-se, também, um medíocre. Assumindo sua inferioridade, desloca os outros para a posição de igual, transformando a ordem e o imaginário social. 

Um deleite para mim, que deixo para vocês degustarem…

Clown ou Palhaço?

15 jan

Qual o termo mais correto afinal?

Concordo com Ferracini (2006): essa é uma discussão inútil.

Não há necessidade, a meu ver, de procurar diferenciações entre termos tão intimamente relacionados, gerando uma espécie de “divisão de classe” entre os artistas cômicos.

Tenho usado os termos clown e palhaço livremente ao longo da pesquisa, sem distinção. Concordo com Maués (2004) e Burnier (2009) quanto à similitude dos termos, já que, embora com origens distintas, ambos designam o mesmo personagem popular, independente de roupas, local de atuação, presença ou não do nariz vermelho.

Bolognesi (2003) explica que o termo clown é uma palavra inglesa, cuja matriz etimológica reporta a colonus e clod. Este termo tem o sentido de homem rústico, do campo, mas também de desajeitado, grosseiro. Na pantomima inglesa, o clown era o cômico principal, com funções de um serviçal, enquanto no universo circense trata-se do artista cômico que realiza cenas curtas , explorando uma característica de excêntrica tolice.

O autor acrescenta que, no Brasil, aparece o termo crom, com referência ao artista que tem a função de palhaço secundário ou partner, operando como contraponto  preparatório às piadas do palhaço principal. Este termo palhaço, por sua vez, é, em nosso país, um equivalente do Augusto, o tipo bobo, emotivo, ingênuo, perdedor. No entanto, engloba também outros tipos e pode fundir-se ao clown.

Há, ainda, a explicação de Castro (2005) quanto à origem do termo palhaço como derivado do nome italiano Pagliacci, personagem da comédia dell’arte também chamado de Zanni, servo estúpido, que se vestia com roupa listrada, de tecido grosso, como o tecido que revestia colchões com enchimento de palha (paglia, em italiano). Em italiano e em português, pagliacci e palhaço significam a mesma coisa que clown em inglês.

Como uma irônica referência à origem do termo, fui desajeitada desde os primeiros passos de descoberta de minha palhaça. Mas isto é um detalhe…

Acredito que falamos a mesma linguagem usando clown ou palhaço ao nos referirmos a esse ser, dilatação de nós mesmos, que nos ensina sobre a fraqueza e o risório do ser humano.

Vejam o que andei lendo:

BOLOGNESI, Mario Fernando. Palhaços. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

BURNIER, Luis Otávio. A arte de ator: da técnica à representação. 2 ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.

CASTRO, Alice Viveiros de. O elogio da bobagem: palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Família Bastos, 2005.

FERRACINI, Renato. As setas longas do palhaço. Revista Sala Preta: nº 6, 2006.

MAUÉS, Marton Sérgio Moreira. Palhaços Trovadores: uma história cheia de graça. 2004. 132f. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2004.

 

Belém fervilhando, pesquisa voltando

12 jan

 

Singelo Auto do Jesus Cristinho na rua

Queridos visitantes,

Retornei a Belém depois de cerca de seis meses morando e trabalhando no interior. Cheia de saudades. Dei de cara com uma surpresa nada agradável: novamente, a Secretaria de Meio Ambiente do município tentou “barrar” a exibição do espetáculo “O Singelo Auto do Jesus Cristinho”, do grupo Palhaços Trovadores, na praça da República. O motivo: a cobrança absurda de uma taxa para uso do espaço público!

Redigi o texto abaixo, encaminhado ao grupo Fórum Teatro do Yahoo, a fim de que os artistas tomassem conhecimento do que vem acontecendo por aqui. Leiam!

Antes dele, no entanto, quero destacar que o espetáculo ocorreu em protesto e foi um enorme sucesso. Engraçadíssimo, irônico e politicamente engajado. A classe teatral e o público cativo dos Palhaços Trovadores estiveram presentes em plena rua, em noite chuvosa. A TV Cultura local também estava lá, filmando depoimentos e manifestações contrárias à atitude da prefeitura…Ou falta de atitude, já que nada fazem para valorizar a cultura popular na cidade. Um discurso do diretor Marton Maués abriu o momento, convidando os artistas locais a se posicionarem contra o descaso e o desmando do poder público com a arte que acontece em Belém do Pará.

 

Singelo Auto do Jesus Cristinho na rua

A partir da apresentação, outros artistas de rua vêm se manifestando e “botando a boca no trombone” contra a prefeitura. Belém está fervilhando!

 

Singelo Auto do Jesus Cristinho na rua

Nesse clima, eu voltei, a pesquisa voltou. Desculpem o abandono de vários meses. Não tenho como explicar aqui os dias que passei. Mas convido-os a voltar a visitar o blog, comentar, perguntar, discutir comigo. “A rua é nossa”, como disse Marton, e Bilazinha volta a perambular por elas!

“Amigos,

Gostaria de encaminhar uma nota de repúdio, escrita após mais um esforço do poder público em Belém do Pará, para impedir que as manifestações artísticas populares da cidade aconteçam. A prefeitura há muito tempo vem provando seu desinteresse pela cultura, dedicando pouco ou nenhum incentivo às diversas manifestações que aqui acontecem. Agora, mais recentemente, tenta impedir que o espaço público seja utilizado pelos artistas, tratando-o como um local privado, onde, tal como em grandes edifícios teatrais, é preciso pagar, isso mesmo, pagar para fazer arte.
O alvo foi o grupo de teatro Palhaços Trovadores, que comemorou recentemente 12 anos de existência. Trata-se de uma trupe de palhaços, que atua através do teatro popular, valorizando a cultura local e já recebeu incentivos de diversos editais e prêmios. Os Palhaços Trovadores se tornaram presença marcante nas praças, ruas e edifícios teatrais de Belém e inauguraram ano passado sua sede, a Casa dos Palhaços, um novo espaço de cultura na cidade, desses que carecemos tanto, aqui no Norte. O local foi cedido pela Fundação Santa Casa de Misericórdia, que reconheceu a importância cultural do grupo para a cidade, um dos poucos que conseguem se manter, apesar da falta de incentivo e outras mazelas do poder público municipal. 
“O Singelo Auto do Jesus Cristinho” é o espetáculo natalino do grupo, apresentado já há vários anos na Praça da República, em Belém, um espaço democrático, livre a todos, de graça. E cheio de graça. Este ano, no entanto, acontecerá sob forma de protesto, já que A PREFEITURA, ATRAVÉS DA SECRETARIA DE MEIO AMBIENTE, RECUSA-SE A FORNECER AUTORIZAÇÃO. Vejam o que escreveu o diretor do grupo, Marton Maués:
 
“amigos, mais uma da prefeitura de belém: além de não fazer nada na área cultural, ainda emperra o trabalho dos artistas populares (aqueles que realizam seus trabalhos em espaços públicos, livre para todas as pessoas). só para protocolar solicitação para apresentarmos O Singelo Auto do Jesus Cristinho, nosso espetáculo natalino, no próximo dia 06, Dia de Reis, tivemos que pagar 27 reais (sob a alegação de que está muita em cima da hora. uma puinição, então?). e mais, querem que paguemos mais 50 reais para podermos apresentar, caso eles liberem o anfiteatro, onde, sabemos, não haverá nada nesta noite.
portanto, amigos, convidados a tds para engrossar este protesto e a estarem lá no anfitetaro, dia 06 de janeiro, às 20h00, pois com ou sem a dita “autorização da semma/PMB, vamos apresentar nossa auto, encerrando a quadra natalina, como fazemos há 12 anos.
repassem esta mensagem a tds os seus pares, por tds os meios: facebook, orkut, e-mail, twitter.
arte para todos, já!”
Situações como esta nos afetam a todos, enquanto artistas, em qualquer tempo e lugar, porque reforçam o descaso do poder público com as artes e a necessidade de nos organizarmos, nos posicionarmos contra este tipo de desmando.
Leiam e repassem por favor. Se puderem, compareçam.
Grata,
Andréa Flores”

Clown me in! (Me inclua na palhaçada)

23 jul
Idea

Idea

Belém está fervilhando. O VII Congresso Mundial do Idea trouxe à cidade o mundo inteiro. Já conversei com coreanos, palestinos, dinamarqueses, sul africanos… Uma Babel harmônica, se for possível. Tive a oportunidade de participar de um Workshop de clown interessante e, no mínimo, revigorante. Chama-se Clown me in (me inclua na palhaçada, como foi traduzido no evento, mas não gostei desta tradução) e foi ministrado por Gaby e Sabine, duas artistas que ministram este workshop pelo mundo, pautadas sobre os estudos de Jacques Lecoq. Nenhuma novidade no que diz respeito aos princípios que eu já conhecia. Os jogos, porém, muitos deles novos para mim, foram excelentes para aperfeiçoar a arte e relembrar que o palhaço está em nós mesmos, é fruto da nossa sinceridade em nos expôr, mostrar o ridículo que há em todos nós, desnudado.

Aqui vai o blog onde elas divulgam o trabalho, com vídeos e fotos para quem quiser dar uma olhada: www.clownmein.com