Distâncias no ser humano

Um homem observa Bilazinha no ver o peso

Um homem se relaciona com a palhaça de um lugar distante

Ciente da vastidão de meu objeto de pesquisa, encontrei-me com uma categorização, que me ajuda a organizar as intensidades que vão emergindo ao longo de minhas incursões pelas ruas, a fim de operar a análise dos dados. Uma teoria assentada sobre a terceira linha, já que delineia um território necessário, um recorte de tudo o que vivo, ao qual, inevitavelmente, escapam afetos (Vejam a página sobre as três linhas, de Suely Rolnik).

Trata-se dos estudos de Hall (2005), onde encontrei uma compreensão da utilização dos espaços como sistemas de comunicação. A maneira como as pessoas se organizam e reagem no espaço em que ocupam, para o autor, não acontece ao acaso. Tem imanências culturais e transmite diferentes mensagens. Por que não dizer diferentes afetos? Para a sistematização dos meus dados, utilizo-me da descrição das distâncias no ser humano. Ele explica que

“O ser humano é cercado de uma série de campos que se expandem e se contraem, fornecendo informações de muitos tipos. […] Não existem apenas os introvertidos e extrovertidos, autoritários e igualitários, apolíneos e dionisíacos, além de todos os matizes e intensidades da personalidade, mas cada um de nós possui uma série de personalidades situacionais aprendidas” (HALL, 2005, p.143).

As diferentes reações que as pessoas estabelecem entre si, se diferenciam de acordo com o espaço que mantém umas com as outras, dividido em quatro distâncias principais, que aumentam progressivamente: íntima, pessoal, social e pública, cada uma delas com uma fase próxima e uma remota.

Distância íntima- fase próxima: “essa é a distância do amor e da luta corpo a corpo, da atitude confortadora e protetora. O contato físico ou a alta possibilidade de envolvimento físico fica em primeiro plano na consciência das duas pessoas” (p.145). Pouco uso de receptores remotos, com exceção do olfato e calor radiante. Pele e músculos de comunicam. Visão nítida perde o foco, concentra-se sobre detalhes aumentados. Pouca vocalização, geralmente sussurro.

Distância íntima- fase remota: as mãos conseguem segurar extremidades. Cabeça com tamanho aumentado, feições deformadas. A íris parece maior que o natural. Nariz exagerado, parece deformado, assim como lábios, dentes e língua. Voz em nível baixo ou sussurro. Calor e odor do hálito. Existem mecanismos de defesa que eliminam a verdadeira intimidade do espaço íntimo em determinadas situações, como em transportes públicos.

Distância pessoal- fase próxima: “o sentido cinestésico de proximidade deriva em parte das possibilidades em relação ao que cada participante pode fazer ao outro com suas extremidades. A essa distância pode-se segurar ou agarrar a outra pessoa. Já não é aparente a deformação visual das feições do outro. Há, porém, um retorno perceptível de informações a partir dos músculos que controlam os olhos[…]. Os planos e curvas da face são acentuados; o nariz fica saliente, e as orelhas recuam; a fina penugem do rosto, os cílios e os poros são perfeitamente visíveis. […] O modo como as pessoas se situam em relação às outras indica seu relacionamento ou quais são seus sentimentos em relação às outras, ou ambos. Uma mulher pode permanecer impune no interior do círculo da zona pessoal próxima de seu marido. Que outra mulher aja da mesma forma são outros quinhentos” (p.148-149). Que uma pessoa comum se aproxime a essa distância, tudo bem. Se for um palhaço, aí tudo pode mudar…

Distância pessoal- fase remota: é o limite da dominação física, até onde alguém toca o outro. “Assuntos de interesse e envolvimento pessoal podem ser debatidos a essa distância” (p.149). O tamanho da cabeça e as feições são vistas normalmente, entretanto o olhar passeia pelo rosto para poder vê-lo. Detecta-se o movimento das mãos. Não se percebe o calor corporal.

 Distância social- fase próxima: aumento do campo visual. “Transações impessoais ocorrem a essa distância[…]. Estar de pé e olhar de cima para outra pessoa a essa distância produz um efeito de dominação” (p.150).

Distância social- fase remota: “essa é a distância para a qual as pessoas passam quando alguém lhes diz: ‘Fique ali para eu poder ver como você está’” (p.151). Indica mais formalidade que na fase próxima. Perde-se os menores detalhes do rosto. Visão do corpo inteiro, com detalhes maiores. Os olhos e a boca são vistos em região de visão mais aguçada. Importante manter contato visual em comunicações e esta distância. Altura da voz é perceptivelmente maior que na fase próxima. “Elevar a voz ou gritar pode produzir o efeito de reduzir a distância social para a distância pessoal” (p.152). Pode ser usada para isolar ou separar as pessoas umas das outras.

 Distância pública- fase próxima: distância a partir da qual uma pessoa alerta pode adotar medidas evasivas ou defensivas, se for ameaçada. Pode detonar reação de fuga. Voz alta, mas não a plenos pulmões. “Linguistas observaram que uma cuidadosa escolha de palavras e ordenamento de frases bem como mudanças gramaticais ou sintáticas ocorrem a essa distância” (p.153). O corpo vai perdendo volume e parecendo achatado. Cabeça parece menor que o natural.

Distância pública- fase remota: usada por figuras públicas importantes. Ocorre progressiva perda dos sutis matizes de significado transmitidos pela voz normal, bem como detalhes da expressão facial e do movimento. Tudo precisa ser exagerado ou amplificado. Ritmo da voz desacelerado, palavras enunciadas com maior clareza e ocorrência de alterações estilísticas. Homem inteiro visto pequeno e inserido em um ambiente.

 Para que essas distâncias? Bem, não vou medir com fita métrica a distãncia com que as pessoas se aproximam de Bilazinha. Mas, baseada numa percepção de que tipo de distanciamento elas mantém, vou categorizar meus dados para análise dentro das distâncias descritas. Para isto, preciso de um fotógrafo atento, que conhece a pesquisa, me ajudando a captar interações a todas as distâncias possíveis, desde aqueles que permitem o abraço e o beijo da Palhaça, até os sorrisos lá de longe.

É isso! Será que funciona? Veremos…Espero que sim.

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Uma resposta to “Distâncias no ser humano”

  1. André Santos 20/12/2010 às 12:01 #

    Olá bom dia!
    Gstaria de saber como faço pra entrar em contato com você para uma possível contratação de um evento.

    meu e-mail andresantos.pa@gmail.com

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