Baffi

O Palhaço Itinerante e o Espaço Público como Zona de Experiência.

Diego Elias Baffi

UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas

Anais do V Congresso ABRACE, Criação e Reflexão crítica, Belo Horizonte, UFMG, 28 a 31 de outubro de 2008.

Para comentar o texto de Baffi, preciso situar o lugar de onde parto, tal como ele fez. Recorro, assim como meu novo amigo, a experiências pessoais enquanto palhaça no espaço público. Não são experiências de um ano, mas um emaranhado inseparável de vivências ocorridas ao longo de 3 anos de contato com a linguagem do clown, e de incursões por feiras livres de Belém, realizadas por ocasião da pesquisa.

Minhas aproximações com o autor aproximam-se, de imediato, quando passo me percebo utilizando a técnica do palhaço itinerante. O autor explica que esta técnica caracteriza um atuante com os seguintes princípios norteadores: itinerância, o palhaço desenvolve suas ações em trânsito por espaços públicos da cidade; micro-números, ao invés de utilizar-se de grandes números e ações mais longas, o palhaço prefere pequenos números, que admitem a interrupção e o dinamismo do espaço; dinâmicas de improvisação, que são estratégias de troca entre a lógica do palhaço e os elementos que encontra.

Encontro, aqui, uma das técnicas que identifico em minhas experiências. Acrescento que os pequenos números desenvolvidos por Bilazinha da Mamãe, minha palhaça, não são pré-elaborados. Ela não vai à rua com nada pronto. Os “números” que desenvolve decorrem diretamente das dinâmicas de improvisação e de características pessoais da palhaça, ações que aciona de seu repertório pessoal, no momento do contato com a rua.

O contato entre Bilazinha e a rua é forte, ela se permite levar pelo espaço. Identifico-me novamente com Baffi, na compreensão desta relação. Para além de uma atuação “na” rua, o palhaço itinerante de que trata Baffi se mistura à rua, faz teatro “com” a rua. O espaço público é um co-autor do palhaço, não um suporte da ação cênica. O espaço público recria o palhaço e é recriado com ele, tornando-se mais um protagonista da ação cênica. Um dos elementos que possibilitam esta relação é a atuação em espaços não delimitados, sem rodas ou semirodas, tal como a maioria dos espetáculos de rua, preferindo o autor intervenções que acontecem no próprio movimento do espaço urbano.

Para compreender como ocorre esse processo, Baffi (2008, p.1) explica:

“Partamos da idéia de “Atuador”, como “aquele que age” e que, para isso necessita estar “vivo” e na acepção de organismo vivo como um organismo que consegue se auto (re)criar constantemente em busca da manutenção de sua condição de “vivente”. Desta forma poderíamos considerar que ao produzirmos a necessidade de recriação constante de um elemento do espaço público, estamos tornando-o vivo.”

O espaço público se vivifica a partir da ação do palhaço itinerante, por meio da necessidade de recriação constante, da composição de novos símbolos. O palhaço agrega novos significados para si mesmo e sua ação, ao mesmo tempo em que o espaço também passa a se compôr com novas nuances. Acreditei nesta realidade desde que comecei a pensar na pesquisa: eu me modifico e a rua modifica-se junto comigo.

O autor propõe uma estratégia para condução à necessidade de recriação do espaço público. Trata-se da utilização dos elementos desse local para fora de sua relação óbvia útil-funcional, inserindo-o em um novo “lugar”, onde ele precise ser recriado em sua relação com o próprio espaço, o palhaço e os passantes. Assim, para tornar “vivos” os elementos usados em cena, possibilitando que sejam recriados pelo público, ele sugere que o artista conduza-o para uma “zona de experiência”, uma zona de criação de territórios e desterritorialização.

Aqui é impossível não me recordar das conversas com Deleuze e Rolnik, e dizer que desenho, na pesquisa, uma cartografia desses processsos de territorialização e desterritorialização que ocorrem na rua. A estratégia de Baffi é identificar formas de vetorização dos elementos públicos em uma zona de experiência, através da técnica do palhaço itinerante. Minha intenção de pesquisa, no entanto, pretende compreender que zona de experiência é esta que vivencio enquanto palhaço de rua.

Sei, através do diálogo com Baffi, que os elementos do espaço público adquirem tendência a portar uma utilidade única, cotidiana e que o significado não habitual desta mono-utilidade não está compreendido na zona de experiência, mas é construído pelo artista. Estes novos sentidos não são maiores nem menores que os cotidianos, mas partem das potencialidades dos elementos, de significados anteriores à sua hierarquização e determinação em mono-utilidades.

“É na criação desta zona de experiência que o palhaço pretende extrapolar a concretude espaço-temporal com os elementos do espaço público ao gerar uma potência de recriação constante dos elementos deste espaço que, ao serem recriados pelo público durante e após a intervenção artística, romperão a hierarquia de utilização dos elementos do espaço público rompendo sua aparente obviedade e tornando-o, ‘vivo’ – o público que se relaciona com o banco caixa de correio poderá entrar em sua potência de homem-envelope ou de marinheiro do mar de asfalto – gerando por conseqüência a poetização, a poiésis, a necessidade de recriação da relação do público com o elemento do espaço público então ‘vivo’, pois pulsante”. (BAFFI, 2008, p.3)

Minha pesquisa, tal com a de Baffi, “se pauta pela não criação de um espaço-tempo artístico outro, onde a vida cotidiana seja deixada de lado, mas trabalha sobre a poetização (poiesis – criação) do espaço público em coabitação com o espaço-tempo cotidiano.” (BAFFI, 2008, p.4).  Rua e eu em rizoma.

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