Ferracini

FERRACINI, Renato. As setas longas do palhaço. Revista Sala Preta: nº 6, 2006.

Um artigo instigante sobre o afetar e ser afetado do palhaço com seu público. O autor procura tratar sobre as diferenças entre esse processo que acontece com o palhaço em cena, e o que ocorre com outros tipos de espetáculos teatrais. Para tanto, utiliza conceitos já desenvolvidos na pesquisa teatral do LUME, como zona de turbulência, setas, corpo-subjétil, matrizes, entre outros.

A zona de turbulência, gerada pelo palhaço tanto quanto por outros artistas cênicos, é uma zona de jogo, criada no momento da atuação, onde, a um só espaço-tempo, ocorre a atualização da relação poética palhaço-público. “Essa relação turbulenta, geneticamente dinâmica, gera uma bolha lírico-poética altamente complexa, que se movimenta em continuum e se torna independente do espaço-tempo cotidiano, atualizando, poderíamos dizer, um espaço-tempo poético. A isso chamamos de forma resumida, fenômeno teatral.” (FERRACINI, 2006, p. 1). O palhaço, em sua zona de turbulência, desloca o espaço-tempo do cotidiano para um outro lugar, poético, onde as relações são atualizadas, afetando seu corpo-subjétil.

O corpo-subjétil é o corpo-em-arte, integrado e vetorial em relação ao comportamento do corpo cotidiano. Um corpo em Estado cênico, ou seja, no momento da atuação com o público e com todos os elementos que compõem a cena. Ele não é subjetividade, nem objetividade, mas está ‘entre’, atravessando esta e todas as polaridades, além de lançar esse ‘entre’ para fora, para o público.

 A zona de turbulência na qual se lança o corpo-subjétil é composta por, pelo menos, uma dupla seta, em um único vetor. A primeira, seta para fora, afeta o público, resultado da abertura das ações, matrizes ou estados do ator, recriados “para fora”, para o espaço e para o outro. A segunda, seta para dentro, é o quanto o próprio ator é afetado, já que o ator, ao abrir-se para fora, cria zonas de abertura e porosidade em seu corpo-subjétil, que o possibilitam ser afetado pelas mesmas aberturas com que afetou o outro. As setas são segmentadas, de maneira que podem ser longas ou curtas, dependendo da ação cênica. No entanto, não importa o cumprimento da seta, ela sempre será igualmente intensa na zona de turbulência.

“Nos espetáculos de palhaços ou clowns, temos uma zona de turbulência criada com setas longas de afetar e ser afetado”. O autor identifica dois motivos para que isto aconteça. O primeiro deles, reside no fato de que, dentro da compreensão do LUME e que eu corroboro, o palhaço não trabalha com ações codificadas, mas parte de um estado de palhaço, que é “[…]a ativação de todos os trabalhos anteriores de palhaço, desde todo o trabalho de iniciação até trabalhos mais técnicos que buscam, dentro desse estado inicial, gerar ações, ampliação dos estados iniciais, pesquisas de modos de relacionamento com o meio e com outros palhaços”. (FERRACINI, 2006, p. 3)

Assim, o palhaço trabalha com um estado, a partir do qual age dentro de uma lógica própria de relacionamento. Disto resulta uma zona de turbulência diretamente vinculada a essa lógica e a esse estado, que determina suas ações físicas, as quais passam a existir a partir de sua relação com o espaço, com os objetos a seu redor, com os outros palhaços, com seu figurino e principalmente com o público. Por isso, a seta do “ser afetado” é longa no palhaço e determina a modificação das macro-ações de um espetáculo, podendo modificar todas as ações previamente estabelecidas.

O segundo motivo que explica as longas setas do palhaço está na característica da linha dos espetáculos de palhaço, que é porosa e pode ser rompida a qualquer momento, a partir da relação com outros palhaços, com o espaço e com o público. A improvisação é uma marca sempre presente, no entanto o autor chama atenção para algo: “[…]tomemos cuidado com essa ‘sensação’ de improvisação. Um palhaço improvisa dentro desse estado e dessa zona de turbulência criada pelo próprio corpo-subjétil do ator-palhaço. O palhaço necessita de muito tempo de treinamento em sala, de relação com o público, de entendimento corpóreo de sua lógica de relacionamento com o universo ao seu redor. Todo esse trabalho gera ações físicas que serão repertoriadas pelo ator.” (FERRACINI, 2006, p.4).

O palhaço trabalha com instabilidades, em uma total implosão da zona de turbulência, recriada e recomposta a todo momento. Na verdade, todo trabalho de ator comporta instabilidades, uma vez que a zona de turbulência é criada, habitada e caracteriza-se pelo próprio corpo subjétil, uma zona de forças em relação, em um movimento contínuo.

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