Hall

HALL, Edward T. A dimensão oculta. São Paulo: Martins Fontes, 2005

A obra constitui a pesquisa do autor acerca da utilização dos espaços, compreendendo-o como sistema de comunicação. Antropólogo, opta pelo campo da etologia e da proxêmica, para desenvolver sua pesquisa, buscando enfatizar a dimensão cultural presente no espaço organizado e mantido pelas pessoas. “Proxêmica é o termo que cunhei para a inter-relação entre observações e teorias do uso que o homem faz do espaço como uma elaboração especializada da cultura” (HALL, 2005, p.1). Baseado em pesquisa multidisciplinares, envolvendo animais, o campo da arte e pessoas, o autor defende que o espaço é o resultado do desejo humano e pode provocar diferentes reações sensoriais.

“A experiência espacial não é simplesmente visual, mas multissensorial. (…). Não importa o que aconteça no mundo dos seres humanos, acontecerá num cenário espacial; e o projeto desse cenário exerce uma influência profunda e persistente sobre as pessoas que nele se encontram” (p. XI). O autor pontua que um espaço não é somente aquilo que vemos, mas o que sentimos, em um sentido amplo. A organização dos espaços, dessa forma, é um reflexo de nossa cultura, está repleto de nossas marcas, assim como deixa suas impressões em nós. Espaços geram posturas, atitudes, sensações, fatos de cutura. Por este motivo, “o espaço é um dos sistemas organizacionais básicos que dão sustentação a todos os seres vivos- especialmente às pessoas” (p.XII).

Cada espaço é a expressão específica de uma cultura. “Pessoas de culturas diferentes não apenas falam línguas diferentes mas, o que possivelmente é mais importante, habitam mundos sensoriais diferentes. (…) A experiência como é percebida através de um conjunto de filtros sensoriais determinados pela cultura é totalmente diferente da experiência percebida através de outro conjunto. Dessa maneira, não se pode confiar na experiência como um ponto de referência estável, porque ela ocorre num cenário moldado pelo homem” (p.3).

“No relacionamento entre o homem e a dimensão cultural, o homem e seu ambiente participam na moldagem um do outro” (p.5). Os espaços são mais do que fruto da vontade do homem. Eles também o moldam, o ajudam a ser quem é. Penso, aqui, em uma cultura de palhaça, que vai se formando em mim, quando Bilazinha da Mamãe escolhe determinados espaços para estar. A rua molda minha palhaça e ela molda a rua.

O autor acredita que o conceito de territorialidade é importante para compreender algumas relações notáveis dos animais com seu espaço, a partir das quais é possível estabelecer relação com o comportamento humano. Segundo ele, “um animal com seu próprio território pode desenvolver um repertório de reações de reflexo diante de características do terreno”, o que o ajuda a reagir de  forma mais rápida e conveniente quando necessário. Também o homem tem noções de territorialidade e desenvolve sua vida em torno de uma base territorial. Seria a rua a base territorial de minha palhaça? Se assim for, as idas constantes à rua é que a tornam território, onde as reações espontâneas do palhaço podem ser melhor estabelecidas.

Além do território, existem outros espaços que cercam os animais, como bolhas. O autor descreve quatro destas distâncias. A distância de fuga é um mecanismo de espaçamento entre as espécies, que mede o limite máximo de aproximação de um predador, até que a outra espécie fuja. No estudo com esquizofrênicos, compreendeu-se que tal distância pode servir para explicar que “(…) a percepção do eu tal como a conhecemos está intimamente associada ao processo de explicitar as fronteiras” (p.15). Assim, parece que todas as pessoas têm suas fronteiras, cuja ultrapassagem pode significar uma ameaça.

A segunda distância é a crítica, que designa uma “estreita zona que separa a distância de fuga da distância de ataque” (p.15). Ultrapassada, leva o animal a atacar.

A terceira distância é a pessoal e refere-se “[…] ao espaçamento normal que animais avessos ao contato mantém entre si. Essa distância funciona como uma bolha invisível que envolve o organismo”. O autor explica que os organismos não se envolvem com tanta intimidade, até que suas bolhas coincidam parcialmente. Além disso, quanto maior a posição na hierarquia social, maior parece ser a distância pessoal.

A quarta distância descrita é a social, “uma faixa invisível que contém o grupo” (p.18). A tecnologia aumentou bastante a distância social para o ser humano, possibilitando contato a longa distância. A internet cumpre este papel com primazia.

Para perceber seu espaço, o homem dispõe de dois tipos básicos de receptores: os remotos (olhos, ouvidos e nariz), que examinam objetos distantes; e os imediatos (pele, membranas e músculos, ou seja, tato), os quais ocupam-se de objetos bem próximos. Em geral, na rua, minha palhaça se relaciona mais com receptores remotos ou imediatos? Creio que, para cada tipo de receptor de interação, ela recebe uma resposta distinta.

Como falo em clown, no entanto, afirmo que os olhos são a primeira via, talvez a principal. A respeito da percepção pela via da visão e audição, o autor afirma que “a percepção espacial não é uma questão apenas do que pode ser percebido, mas do que pode ser excluído” (p.55). O que prioriza o olhar de minha palhaça na rua, o que exclui? Para onde volta o seu olhar? Para o que olha o palhaço no meio da rua?

“Costuma-se considerar que os olhos são o principal meio pelo qual o ser humano colhe informações. Por mais importante que seja essa função, não deveríamos deixar de lado a utilidade dos olhos na transmissão de informações. Por exemplo, um olhar pode punir, estimular ou estabelecer o domínio. O tamanho das pupilas pode idicar interesse ou aversão” (p.80). Além de transmitir informação, a visão é também uma síntese, ou seja, o homem “aprende enquanto vê, e o que ele aprende influencia o que vê” (p.80).

O sentido de espaço e distância no ser humano não é estático. “Sua percepção do espaço é dinâmica porque está relacionada à ação- o que pode ser feito num determinado espaço-, mais do que ao que é visto pela observação passiva”. (p.143)

“O ser humano é cercado de uma série de campos que se expandem e se contraem, fornecendo informações de muitos tipos. […] Não existem apenas os introvertidos e extrovertidos, autoritários e igualitários, apolíneos e dionisíacos, além de todos os matizes e intensidades da personalidade, mas cada um de nós possui uma série de personalidades situacionais aprendidas” (p.143, grifo meu). O efeito que uma situação provoca em uma pessoa é o resultado do cruzamento de muitas informações que se encontram culturalmente com os espaços, de maneira que a fronteira do ser humano não está em sua pele. A existência desses campos ajuda a explicar as reações diversas das pessoas em relação ao palhaço.

As distância no ser humano se dividem em íntima, pessoal, social e pública, cada um com uma fase próxima e outra remota.

Distância íntima- fase próxima: “essa é a distância do amor e da luta corpo a corpo, da atitude confortadora e protetora. O contato físico ou a alta possibilidade de envolvimento físico fica em primeiro plano na consciência das duas pessoas” (p.145). Pouco uso de receptores remotos, com exceção do olfato e calor radiante. Pele e músculos de comunicam. Visão nítida perde o foco, concentra-se sobre detalhes aumentados. Pouca vocalização, geralmente sussurro.

Distância íntima- fase remota: as mãos conseguem segurar extremidades. Cabeça com tamanho aumentado, feições deformadas. A íris parece maior que o natural. Nariz exagerado, parece deformado, assim como lábios, dentes e língua. Voz em nível baixo ou sussurro. Calor e odor do hálito. Existem mecanismos de defesa que eliminam a verdadeira intimidade do espaço íntimo em determinadas situações, como em transportes públicos.

Distância pessoal- fase próxima: “o sentido cinestésico de proximidade deriva em parte das possibilidades em relação ao que cada participante pode fazer ao outro com suas extremidades. A essa distância pode-se segurar ou agarrar a outra pessoa. Já não é aparente a deformação visual das feições do outro. Há, porém, um retorno perceptível de informações a partir dos músculos que controlam os olhos[…]. Os planos e curvas da face são acentuados; o nariz fica saliente, e as orelhas recuam; a fina penugem do rosto, os cílios e os poros são perfeitamente visíveis. […] O modo como as pessoas se situam em relação às outras indica seu relacionamento ou quais são seus sentimentos em relação às outras, ou ambos. Uma mulher pode permanecer impune no interior do círculo da zona pessoal próxima de seu marido. Que outra mulher aja da mesma forma são outros quinhentos” (p.148-149). Que uma pessoa comum se aproxime a essa distância, tudo bem. Se for um palhaço, aí tudo pode mudar…

Distância pessoal- fase remota: é o limite da dominação física, até onde alguém toca o outro. “Assuntos de interesse e envolvimento pessoal podem ser debatidos a essa distância” (p.149). O tamanho da cabeça e as feições são vistas normalmente, entretanto o olhar passeia pelo rosto para poder vê-lo. Detecta-se o movimento das mãos. Não se percebe o calor corporal.

 

Distância social- fase próxima: aumento do campo visual. “Transações impessoais ocorrem a essa distância[…]. Estar de pé e olhar de cima para outra pessoa a essa distância produz um efeito de dominação” (p.150).

Distância social- fase remota: “essa é a distância para a qual as pessoas passam quando alguém lhes diz: ‘Fique ali para eu poder ver como você está’” (p.151). Indica mais formalidade que na fase próxima. Perde-se os menores detalhes do rosto. Visão do corpo inteiro, com detalhes maiores. Os olhos e a boca são vistos em região de visão mais aguçada. Importante manter contato visual em comunicações e esta distância. Altura da voz é perceptivelmente maior que na fase próxima. “Elevar a voz ou gritar pode produzir o efeito de reduzir a distância social para a distância pessoal” (p.152). Pode ser usada para isolar ou separar as pessoas umas das outras.

 

Distância pública- fase próxima: distância a partir da qual uma pessoa alerta pode adotar medidas evasivas ou defensivas, se for ameaçada. Pode detonar reação de fuga. Voz alta, mas não a plenos pulmões. “Linguistas observaram que uma cuidadosa escolha de palavras e ordenamento de frases bem como mudanças gramaticais ou sintáticas ocorrem a essa distância” (p.153). O corpo vai perdendo volume e parecendo achatado. Cabeça parece menor que o natural.

Distância pública- fase remota: usada por figuras públicas importantes. Ocorre progressiva perda dos sutis matizes de significado transmitidos pela voz normal, bem como detalhes da expressão facial e do movimento. Tudo precisa ser exagerado ou amplificado. Ritmo da voz desacelerado, palavras enunciadas com maior clareza e ocorrência de alterações estilísticas. Homem inteiro visto pequeno e inserido em um ambiente.

A continuar (salvei em outro arquivo e não encontro….mas logo virá)…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: