Haroche

HAROCHE, Caroline. A condição sensível: formas e maneiras de sentir no ocidente. Rio de Janeiro: Contracapa, 2008.

Trata-se de uma obra interdisciplinar ou transdisciplinar, como explica a autora, inscrita nas bordas de diferentes disciplinas. “O que está em pauta nessa modalidade contemporânea de investigação é a construção de novas problemáticas pela costura meticulosa de janelas entreabertas por diferentes discursos teóricos” (p.13). Com isto em mente, ela se propõe a analisar os registros do sentido e do sentimento, a partir da genealogia das categorias de indivíduo e sujeito na tradição ocidental, ao longo de diversos momentos históricos.

“O ponto de partida de sua exposição é a caracterização da individualidade pelas marcas da moderação e deferência. No ritualismo que delineou as maneiras de parecer, havia um código de distância e de proximidade que definia a cartografia do espaço social. Pela mediação desse código simbólico, os laços sociais, conforme a proposição de Carlo Ginzburg, permeavam-se da oposição embaixo x acima. Em consequência disso, as fronteiras entre os registros da intimidade, da privacidade e do público se mantinham no campo tanto do indivíduo quanto dos laços sociais”. (p.15)

“As formas e maneiras de ser e de se comportar que ordenavam os níveis e as hierarquias no Antigo Regime perduram, sob formas muitas vezes diferentes e renovadas, nos tempos democráticos (Aléxis de Tocqueville). Elas regulam as distâncias, esmeram-se em prevenir o corpo-o-corpo, a fusão e, além disso, a ameaça de indiferenciação: o papel decisivo das formas e das maneiras transparece no corpo de cada um e entre os corpos de todos. A propriedade visível de si nos gestos e nas condutas (Karl Marx, Halbwachs) é atestada, portanto, no espaço concreto, físico, material das instituições, em particular, e dos espaços sociais, de modo mais amplo” (p.19).

A autora defende a idéia de que os comportamentos sociais e distâncias estão relacionados a uma ordem maior de diferenciação, humilhação, divisão social. Surgem as divisões de superioridade e inferioridade, a partir do imperativo da moderação, do controle dos gestos.

Um dos temas que permeiam a discussão da autora sobre a moderação, a partir da análise das sociedades frnacesa e anglo-saxã nos séculos XVI e XVII, é a questão da civilidade e do governo de si. “O governo de si é um componente essencial do poder, o mais seguro entrave à desordem, um fundamento do governo dos outros, o complemento necessário da lei.” (p.25). Em outras palavras, o corpo é um operador político e social, que, quando mais se modera, demonstra se governar, se disciplinar, contribui para a manutenção da ordem e se apropria do poder sobre os outros. Se o corpo que se governa é um entrave à desordem, o palhaço e seus movimentos livres, desmedidos, sem amarras sociais, é um ser que não se governa, não exerce poder sobre os outros. Ao contrário, coloca a nós todos como iguais.

A autora, pautada em pesquisas específicas sobre o assunto, chama atenção para o fato de que os gestos de nobres e figuras da corte são, em geral, comedidos e lentos. Com isto, defende que “(…)é preciso perceber um signo de poder na lentidão de um passo ou na postura de um movimento(…). A mobilidade descontrolada, a excitação, o rebuliço aparecem, então, como signos de despossessão, de uma posição de inferioridade, ao passo que o domínio de si representa algo superior e um elemento central de dominação, justamente o que Norbert Elias sublinhou a respeito da sociedade de corte.” (p.26). O palhaço coloca-se numa posição de despossessão, inferioridade, comportando-se como alguém desgovernado, entregue ao outro, questionando a ordem social.

“O governo de si, quer se trate do corpo, quer dos sentimentos, exige postura: o bem-estar do próximo e o respeito por ele, o exercício constante de um controle vigilante de si mesmo. Deixar o corpo falar e exprimir muito francamente os sentimentos em sociedade são, portanto, atitudes a proscrever. É preciso lutar contra o excesso de interesse por si mesmo e manifestar atenção, deferência, respeito e consideração pelo outro.” (p.28). Por esse pressuposto, conter-se nos gestos relapsos, no vestir, no brincar, é símbolo de temperança e de uma suposta ‘consideração pelo outro’, que interpreto como retirar o interesse de si mesmo, esconder-se. O palhaço, ao contrário, mostra-se e no treinamento aprende a olhar para si, ver-se por completo, em mazelas, que escondemos não por consideração, mas por preocupação com os outros, com ser agradável à sociedade.

Governar a si mesmo é o princípio de um bom proceder. Uma pessoa bem sucedida é aquela capaz de dominar primeiro a si, suas paixões e impulsos, para, em seguida, exercer poder sobre os outros. “A moral, que é a ciência dos costumes, ensina a maneira de governar a si mesmo pelas regras da razão, bem como rege a economia e a política. Desse modo, todo ser humano, pai de família ou soberano, deve saber se disciplinar, regrar a si mesmo, subtrair-se aos impulsos do sentimento e submeter-se às regras da razão. Saber conduzir a família ou, em outras palavras, ser um bom ecônomo e bem governar um povo provêm fundamentalmente de uma mesma exigência- fruto de longo aprendizado-, de um mesmo princípio, de uma mesma qualidade: saber governar a si mesmo.” (p.30).

“Norma social, exigência ética, imperativo político, o preceito de postura e de moderação das atitudes e dos gestos acompanha o exercício do governo de si e do governo dos outros. A postura, que estrutura, em profundidade, certo tipo de economia psíquica, certa forma de subjetividade, exalta um modelo fundamental de representação do sujeito. Ela é, sem dúvida, um dos elementos essenciais de uma antropologia histórica e política das formas do laço social nas sociedades ocidentais. O próprio termo elucida determinados modos de funcionamento cruciais. O que é, de fato, a ‘postura’? Uma capacidade, no sentido próprio da palavra: o corpo é um receptáculo fechado, ameaçado do interior e do exterior, pois o que põe em risco a ‘postura’ são os arroubos, os excessos, o que não se controla, o que não se governa em si próprio, mas também o ingovernável no outro e ainda as trocas, percebidas como uma ameaça à integridade, à identidade, à virtude de cada um”. POSTURA= RESPEITO AO PRÓXIMO/DELIMITAÇÃO DE SI. Delimitar-se, reservar-se, conter-se, para evitar os próprios excessos e os dos outros. Ocorre que o palhaço lida constantemente nessa linha de tensão, suscitando o ‘ingovernável’ do outro. E ele mesmo é um subversivo, deixando exposto seu ‘ingovernável’. O clown é uma ‘ameaça’ à rua, um rebelde, e seu libertador, doando uma visão diferente sobre o funcionamento social. Uma nova postura: a despostura, o devir.

A autora prossegue, passando a abordar a função e a significação simbólica da proximidade e do afastamento espacial. “A representação do espaço seria devida ao seu caráter intrínseco- dividido, diferenciado-, condição de uma identidade que poderia se revelar na coincidência entre posição espacial e posição social.”(p.41). A distância é símbolo de maior poder. A proximidade, por sua vez, denota intimidade.

A imobilização e a mobilidade no espaço também têm sentido simbólico. “Gestus designa um gesto particular e também um movimento ou uma atitude do corpo como um todo. Em gesculatio, há a idéia de gesto excessivo, desordem, transbordamento. A palavra motus, por sua vez, comporta múltiplas significações (…). Schimitt lembra que motus pode corresponder tanto ‘ao movimento dos astros e, mais amplamente do cosmos’ quanto à mobilidade dos corpos. O movimento dos astros, celeste, é um dos modelos que mais são valorizados para os gestos. Quando qualifica o corpo, a mobilidade possui, ao contrário, uma conotação pejorativa” (p.47). Lento, contido, imóvel= celeste, positivo. Irrequieto, móvel, mutante= sentido negativo, provoca desordem.

A continuar…

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Uma resposta to “Haroche”

  1. jota por enquanto 26/10/2012 às 21:10 #

    cara amiga palhaça/hoje nao fui trabalhar e fiquei todo o dia lendo o seu blog e como
    todo clown que se merece terminei apaixonadando-me pela minha já querida e inesquecível:………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
    billazinha/ a outra parte da minha minha maçã surrealista (fabio jr e outros)
    Assim passo para as cordiais apresentaçoes: o nome de meu alter ego é augusto (josé)… ,sério? / sério : começei a fazer arte escrevendo poesias para as musas que nunca conseguia namorar e as vezes para minha irmã o que me rendeu 10 anos internado numa terapia de grupo e + cinco numa igreja evangelica Batista/ fui expulso pelo meu clown dos Escoteiros do Brasil e graduei-me em odontologia (imaginou?),mas como sempre tinha sido um bom escultor teminei meus anos de profissao no saldo positivo/ á mesma epoca iniciei meus estudos em artes plásticas no MAM em rj / logo após integrei-me ao grupo de escultores da escola de escultura contemporanea do museu hist, do ingá/ lá /realizando instalações e performances foi surgindo meu clown
    que só veio a iniciar uma personalizaçao ativa após a realizaçao de uma intervençao urbana na rua da alfandega rj em 92 e uma ativaçao em 2006 com vistas à um projeto miidias na uff /lá se vão 20 anos (, o mesmo tempo que ODISSEU levou para retornar para ITACA ) /significativa coincidência/: um dos titulos do trabalho que inicio a desenvolver para realizar nas ruas do centro do rio de janeiro .
    Assim em nome do novo trabalho a realizar que certamente envolverá a chegada da familia real ao rio de janeiro e de outras odisseias que por ventura aportar e rapidamente
    voltando ao assunto que interessa/ a paixão entre palhaços/ tomo a licença poética para realizar a apropiaçao prévia de algumas intensidades de seus desejos /pensamentos prometendo manter a paixão(e a citaçao das fontes) até que outro interesse nos separe

    beijos e abraços palhaçais do desde sempre
    Jota porenquanto

    em tempo:para quem quer saber de “APROPIAÇAO” ver por ex: o texto de Virginia Claudia de Ribeiro “APROPIAÇAO NA ARTE CONTEMPORANEA” entre outros.

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