FLANEUR, um método de pesquisa

“Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flaneur (vadio) e praticar o mais interessante dos esportes — a arte de flanar”.

João do Rio, A alma encantadora das ruas

Descobri que sou uma pesquisadora-flaneur. Não, isso não é uma escolha. A identidade ou o método que o pesquisador usa para ir a campo é, para mim, uma descoberta. Primeiro idealizamos a atitude que desejamos, o ideal. Depois, vamos descobrindo devagar, que nome dar para isto.

Encontrei-me com João do Rio para achar minha resposta. O flaneur, que traduzi livremente como “vadio”, é alguém que assume uma postura de curiosidade e liberdade diante da rua, para conhecer mais dela. Nas palavras do próprio autor,

“Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas(…); é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja. É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde vai. Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme (companheiro) possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão”.

Quero ir para a rua flanar! É que faz minha palhaça desde meu primeiro contato com o espaço urbano, sair por aí, sem destino, sem motivo primeiro, aberta a tudo. Olha tudo, se encanta, conversa, se mistura e tira suas conclusões. É inútil, para quem vê. Ora, o que faz uma palhaça pela rua, sem pedir dinheiro, sem distribuir panfletos, sem fazer nada além de estar lá, em igualdade, com a alma aberta? Simples. Flana!

Interessante é que o flaneur e o palhaço se parecem. Aqui vão trechos da dissertação de Marton Maués, um grande amigo e pesquisador de palhaços. Quem quiser ver a dissertação inteira, procure o nome dele e o título “Palhaços Trovadores: uma história cheia de graça” no google.

“O clown se expõe, ri de seu próprio ridículo, assume-se como é- ingênuo, grotesco, engraçado e lírico. […] Palhaços são perdedores, são frágeis, vulneráveis […]. Eles estão próximos de nós, de nossa natureza, por isso nos tocam, nos fazem rir e nos comovem. […] O clown é, pois, esse ser que vê tudo de um modo particular e próprio. Um gerador de emoções que quer e precisa do contato com outro, do jogo com o público.”

Agora, vejam este trecho de João do Rio:

“O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado do sereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. […]. E de tanto ver que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete.

A ingenuidade, a abertura ao contato, a preocupação com besteiras, enfim, me faz aproximar a atitude do flaneur e minha palhaça na rua. Tornou-se meu método de pesquisa.

Importante destacar que o termo flaneur tem origem em Baudelaire e já foi utilizado também por Walter Benjamim, a quem venho estudando mais a fundo. Por hora, sinto-me feliz em saber que já posso explicar o que ando fazendo por aí…

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3 Respostas to “FLANEUR, um método de pesquisa”

  1. Adailton Alves 24/05/2010 às 22:46 #

    Bem interessante o seu modo de pesquisar e como encontrou semelhanças com João do Rio. Penso que a maneira como se coloca está mais para o que Benjamin chama de basbaque, que é de certa forma, subsumida pela rua. Como se trata de uma palhaça, tem tudo a ver. Mas se pensarmos que no momento que vai a rua está também pesquisando – e toda pesquisa requer diatanciamento, análise -, temos um duplo que age nessa interação com o espaço urbano: a palhaça que apenas age e reage aos acontecimentos e se deixa levar pela cidade; e a pesquisadora, que apaga-se para a palhaça,mas está viva. Nesse sentido, flanar assumiria mas o papel de detetive, como já assinalou Benjamin ao estudar Baudelaire.

    Enfim, gostei bastante, pois sou um louco que pesquisa e busa entender essa coisa chamada cidade. Parabéns!
    E você escreve muito bem!

    • Andréa Flores 26/05/2010 às 21:14 #

      Obrigada, Adailton. De fato, flanar sempre fiz, como palhaça. Me largo, sem querer saber. Mesmo assim, algo ficou, tanto que resultou no interesse por esta pesquisa. Agora a atitude é outra, mesmo.
      Muito legal sua contribuição. Soma e muito!
      Um abraço!

  2. Suani Corrêa 29/05/2010 às 15:47 #

    Andréa, vc já leu este texto de Benjamin sobre Baudelaire? Acho que seria interessante vc lê-lo. Eu não o li, mas posso tentar consegui-lo pra vc. Ou então vc poderia pedir ao próprio Adailton, que comentou sobre ele, para disponibilizá-lo pra vc. Que vc acha?

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