APRESENTAÇÃO

Vejam como ficou minha apresentação. O texto é sempre provisório, mas vou operar as atualizações aqui, sempre que ocorrerem. A maior parte dele já constava, no histórico da pesquisa, mas melhorei a escrita, suprimi algumas partes e inclui outras:

1- APRESENTAÇÃO: SENHORAS E SENHORES, RESPEITÁVEL PÚBLICO

É difícil explicar quando nasce este trabalho. É fruto de uma pesquisadora apaixonada e paixões determinam meus fazeres desde sempre, direcionando o investimento de meus afetos. Desta vez, a paixão foi à primeira vista, como poucos ousam dizer que experimentaram. Aconteceu comigo.

O desejo de escrever este trabalho partiu do movimento de afetos em torno do palhaço. Conheci a linguagem do clown ou palhaço há cerca de três anos e, mesmo com pouco tempo de experiência, sou capaz de reconhecê-la como um amor recém descoberto, imaturo, mas verdadeiro e sincero.

Sou terapeuta ocupacional, formada pela Universidade do Estado do Pará. Ao longo do curso, aprimorei meu interesse pela arte e decidi investir em um desejo antigo, o teatro, compreendendo que poderia auxiliar minha prática profissional. Tornei-me atriz, pela Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA), onde é ministrada, ao segundo ano do Curso Técnico de Formação em Ator, a disciplina Clown. Foi quando tive meu primeiro contato formal com minha nova paixão. O palhaço, porém, faz parte de minha vida há algum tempo.

Minha família sempre cultivou o hábito de ir ao circo, quando, não muito freqüentemente, visitavam a cidade de Belém. Debaixo da lona, sempre me senti em um mundo à parte, onde tudo era possível e eu sabia que seria divertido. Costumava ficar tensa com os trapezistas, as acrobacias, o “globo da morte”, os malabarismo e os números com animais, pobres coitados, na minha opinião, que poderiam levar chicotada se não executassem o serviço corretamente. No meio de minha agonia, aparecia aquela figura excêntrica, que me fazia esquecer por alguns instantes toda a tensão, para rir de suas bobagens: palhaços.

Eles nunca me causaram medo, pelo contrário. Eram refúgio, calmaria, diversão. O último circo que tive oportunidade de ir, já adulta, levando as crianças da família, era bastante modesto. Não sei ao certo por que, mas poucas vezes ri tanto quanto naquele dia. Todos diziam que os palhaços eram sem graça, porém minha família e eu aguardávamos ansiosamente cada entrada deles, quando o riso era certo e fácil, provocado por gracejos pouco elaborados. Absurdamente simples, tornavam-se engraçados justamente pelo suposto “despreparo” dos artistas. Na minha opinião, eram, na verdade, gênios na arte de fazer rir.

Havia também os palhaços de festas infantis, cuja chegada eu aguardava ansiosa. Era uma daquelas crianças que corria atrás do artista, topava todas as suas brincadeiras, e só voltava a me sentar quando tudo terminava ou quando mamãe chamava para comer alguma coisa. No entanto, não costumava me destacar entre as outras crianças, porque era tímida demais para conversar com o palhaço. Lembro que ficava lisonjeada quando eles decidiam mexer comigo, perguntar meu nome e, em especial, quando me abraçavam. Considerava especial quem conseguia chamar atenção de um palhaço a ponto de receber um abraço seu. Comigo acontecia poucas vezes.

De qualquer forma, gostava muito de palhaços. Descobri que eles podiam atuar também no teatro muito tempo mais tarde. Já havia ingressado na ETDUFPA quando conheci o grupo Palhaços Trovadores, minha primeira referência de palhaços no teatro. O diretor e fundador do grupo, Marton Maués, foi meu professor em uma das primeiras disciplinas, “Corpo e Máscara”, quando aprendi que o nariz de clown é a menor máscara do mundo. Achei fantástico imaginar que um pequeno objeto na ponta do nariz podia ser uma máscara e exigia treinamento para ser usado. Ele falou de seu grupo e eu, atenta, aguardei a próxima oportunidade de apresentação deles para conferir a novidade.

Era junho, época de festejos em Belém. A animada quadra junina envolve, na cidade, apresentações de quadrilhas, cordões de pássaros, dentre outras manifestações culturais. Para minha surpresa, os Palhaços Trovadores encenavam um espetáculo especialmente voltado para a época, chamado “A Quadrilha dos Trovadores a Caminho da Rocinha”. Convidei a família toda, para conhecermos juntos aquela arte.

Lembro de ficar hipnotizada ao vê-los quase prontos para entrar em cena, terminando a maquiagem, fazendo aquecimentos e conversando entre si como “gente comum”. Chegamos cedo e eu aproveitei para observá-los de longe. Era um estado de suspensão. Que arte simples, bela e rica se preparava para acontecer ali! E eu não tinha idéia de como seria ver meus palhaços da infância, do circo e das festas, fazendo teatro.

O espetáculo foi maravilhoso. Nos divertimos tal qual as crianças que se amontoavam na frente, para vê-los de perto. Trajados como presidiários, com roupas listradas de preto e branco, os palhaços formavam, literalmente, uma quadrilha, com revólveres de plástico e tudo. Eles levavam expressões ao pé da letra, como se não compreendessem o mundo da mesma forma como nós. Rimos e concordamos que voltaríamos mais vezes para assistir outras apresentações. Eu estava absolutamente encantada. Palhaços faziam teatro!

A partir desse dia, virei público cativo do grupo. Uma presença certa na platéia, um olhar atento para cada palhaço, que começava a conhecer de perto. Eu estava cada vez mais envolvida e curiosa quanto à linguagem que utilizavam. Em 2008, quando iniciava o segundo ano na ETDUFPA, experienciei o momento que aguardava com ansiedade havia alguns meses: a disciplina de clown.

Cheguei muito empolgada, ávida. Lá, sofri bastante. Eu não tinha habilidade, errava os exercícios e definitivamente não me destacava na turma. O professor, novamente Marton Maués, me dizia para ter calma, que bons palhaços são aqueles antigos, que praticam por muitos anos. E, “aos trancos e barrancos”, nasceu Bilazinha da Mamãe, minha palhaça.

O que sei sobre clowns foi Marton quem ensinou. Ele mesmo atribuiu o nome de minha palhaça, com base em uma constrangedora história de infância, que lhe contei certa vez. Ao longo da disciplina, desenvolvi uma certeza que levo comigo até hoje: de tudo o que conheci sobre teatro, ser palhaço é o que há de mais prazeroso, porém de mais difícil. Sem dúvida, o prazer, que não traduzo facilmente em palavras, se sobrepõe às minhas dificuldades, que aproveito para me impulsionar, em busca do aprimoramento da arte que passei a amar.

A primeira vez que saí na rua como palhaça foi consequência dessa compreensão. Marton nos lançou um desafio, durante a disciplina: sair de palhaço desde o local de onde partíamos até chegar à ETDUFPA. O que eu podia fazer? Não podia contar com meu talento para ser palhaça, então precisava enfrentar os desafios para tentar consegui-lo. Curiosamente, da rua não saí mais. Sozinha ou acompanhada de duas outras amigas que também haviam se apaixonado pelo estranho hábito de pintar o rosto para viver e sair por aí, conheci o espaço urbano, o estranhamento e o prazer de ser palhaça no meio da rua.

Tínhamos minha casa como ponto de encontro para nos arrumarmos e ser palhaças pela rua. Combinávamos o dia e o local, elegendo esse lócus como fonte de aprendizado. Passamos a ir também em bosques, festas infantis e pequenos eventos. Foi em um deles que me perguntaram como nos anunciariam, qual era o nome de nosso grupo. Pega de surpresa, olhei para nossas pernas e observei as meias, com pares trocados. Disse então que éramos as “Meias Trocadas”. Nos anunciaram desta forma e nos demos conta de que éramos um grupo de palhaças. Permanecemos trabalhando juntas, nesse grupo que ainda engatinha, ao qual denominamos hoje de “Trupe das Meias Trocadas”. A Trupe já esteve em hospitais, eventos de médio porte e, mais notoriamente, na rua, procurando aperfeiçoar a arte que amamos, contaminando e nos permitindo contaminar por onde passamos.

Mais tarde, tive a oportunidade de participar como atriz convidada de alguns espetáculos dos Palhaços Trovadores. Experimentei os encantamentos normais de quem atua junto àqueles que admira e a sensação de submersão, cada vez mais profunda, no universo do clown. O grupo é pioneiro na linguagem do clown em Belém e já existe há doze anos. Com tradição na cultura popular, atua tanto em espaços fechados quanto públicos. Recebo influência marcante dos Palhaços Trovadores até hoje, considero minha escola.

Enquanto participava com eles de mais um processo de montagem, emergiram algumas inquietações importantes para esta pesquisa. O espetáculo chama-se “O Mão de Vaca”, adaptação livre de “O Avarento”, obra do dramaturgo francês Molière. Através de um processo colaborativo, que contou com a participação direta do público durante toda a montagem, tive a oportunidade de ensaiar durante vários meses e desenvolver a maior parte da primeira temporada em espaços públicos, especialmente na praça da República.

Foi ao longo desse processo que passei a prestar atenção às tensões da rua. Sentia que as intensidades do lugar influenciavam Bilazinha e passei a acreditar também que a palhaça provocava algo naquele espaço. Em um dos ensaios, tive a oportunidade de sair de cena e jogar com a platéia que se formava ali. Bilazinha esteve, a maior parte do tempo, conversando com um homem maltrapilho, alcoolizado, que assistia a tudo em um canto, a margem dos demais. Eu somente o observava e tecia alguns comentários sobre a cena. A conversa entre a palhaça e o homem evoluiu ao ponto de, ao final de tudo, ele me cumprimentar e elogiar o trabalho, dizendo que também era um artista.

Em outro momento, o ensaio sofria muitas interferências de pessoas como aquele homem, bastante comuns na Praça da República, que adentravam à cena ou comentavam tudo em voz alta. De alguma forma, acreditava que essas coisas me afetavam como palhaça, embora não soubesse dizer ao certo como.

Dessa forma, como pesquisadora, hoje, desejo investigar a relação que vivencio entre o palhaço e o espaço urbano, ou seja, o que a rua faz com minha palhaça, o que minha palhaça faz com a rua? Lanço meu olhar apaixonado e multiplicado, para compreender meu processo em conexão com os diversos lugares de onde parte meu objeto de estudo.

Ao leitor, digo apenas que este trabalho é um convite à multiplicidade, à mistura. Eu, Bilazinha, a rua, feiras livres de Belém, palhaços de todos os tempos e qualquer um que se permita contaminar com minha experiência. Escolham um lugar no chão para sentar ou ficar em pé. De passagem ou parando para ver até o final. Senhoras e senhores, o espetáculo vai começar.

3 Respostas to “APRESENTAÇÃO”

  1. Natali R Martins 14/10/2012 às 13:58 #

    Olá Bilazinha, td bem???? Meu nome é Natali sou de São Paulo, vou me formar no final do ano em Terapia Ocupacional, meu TCC é sobre arte do Clown e a Terapia Ocupacional, está em construção, pois vou fazer levantamento bibliográfico … gostaria de informações sobre artigos que Terapeutas Ocupacionais escreveram sobre arte do clown, se você tiver e pudesse me ajudar, vou ficar muito feliz, acho que podemos ter várias trocas… Gostei muito do seu blog….. Bjosssss Natali

    • Andréa Flores 15/10/2012 às 10:22 #

      Olá, Natali. Obrigada pela visita. Este blog há muito tempo não é atualizado, já que concluí a pesquisa. O mais atual, de minha nova pesquisa, é http://www.palhacasdafloresta.wordpress.com . Muito interessante sua pesquisa, sempre sonho com um orientando com trabalho assim! rsrsrs. O problema é que material já escrito sobre palhaço e terapia ocupacional é restrito. Não conheço nada específico. O que você pode fazer é ver o que há sobre arte em Terapia Ocupacional e os escritos sobre palhaços, para relacioná-los. Você, então, será a primeira a teorizar sobre o assunto. E eu vou achar ótimo! 😉 Sugiro três obras. Uma, de Alice Viveiros de Castro, “O Elogio da Bobagem”. A outra, de Mário Bolognesi, “Palhaços”. A terceira, de Jacques Lecoq, “O corpo poético”. Se quiser, envio também minha monografia resultante desta pesquisa para você. Boa sorte e parabéns pela pesquisa!

      • Natali R Martins 19/10/2012 às 22:30 #

        Olá Andréa… Obrigada por responder… Quando você diz restrito é que da biblioteca os artigos…Gostaria sim de ler sua monografia… Obrigada pelas informações… Bjos até mais

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