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Linhas, cartografias…

21 jan

Enquanto vou me encontrando, bem devagar, em minha metodologia, deixo aqui os primeiros escritos. Digam o que acharam:

Esta pesquisa é costurada com três linhas. Às vezes tornam-se duas, outras uma só. Sempre um movimento. Meu roteiro de ações ou metodologia é assim, cheio de reentrâncias, devires, afetos. Meu desejo funcionando em plenitude, provocando uma fabricação incansável de mundo, que é o contrário do caos.

Quando falo em linhas, me remeto a Rolnik (2007), quando descreve o traçado do desejo. Desejo é movimento de afeto e a simulação desses afetos em máscaras, que os corporifica, territorializa. Neste processo, três são as linhas abstratas de movimento do desejo. A primeira, invisível e inconsciente, é a linha dos afetos, aqueles resultantes do encontro entre dois corpos; um fluxo, que não cessa de ser produzido. A segunda, bipartide, faz um movimento de vaivém, que territorializa (da produção de afetos para a composição de territórios) e desterritorializa (do visível, consciente, para o invisível e inconsciente dos afetos escapando). A terceira é a dos territórios, finita, visível e consciente, que cria diretrizes para a consciência operar os afetos.

Minha metodologia é uma linha visível, um território delineado por um corpo de afetos que, no esforço de sistematização e cientificidade, necessitam ser organizados. É necessário criar uma constelação funcional, que me permita olhar a experiência enquanto pesquisadora. O próprio trabalho como um todo designa um território a ser observado, nunca a totalidade da experiência. Isto me aquieta, porque alivia o medo do reducionismo, de resumir demais uma experiência que não tem limites. Meu roteiro é finito, tal qual a terceria linha, e, por isso mesmo, é bom lembrar que afetos sempre escaparão aos territórios, a experiência sempre transbordará os limites desta metodologia e da própria pesquisa.

A cientificidade da pesquisa me exigiu a dureza da terceira linha, a segmentação, a operacionalização de cortes. Preciso dizer que sofro com isto, mas reconheço como presença inevitável e necessária. Mesmo assim, as outras linhas continuam por aqui.

Chamei a este capítulo de roteiro de ações. Um roteiro é um composto de diretrizes, para o palhaço ter em mente ao improvisar suas peripécias. Ele tem idéia do que irá fazer, de onde deve chegar. No entanto, perde-se no caminho, é livre para jogar com seu público, desviar sua rota e, então, encontrar-se novamente com o roteiro ali adiante. Ele, então, o conclui, nunca como idealizou, mas a sua maneira, a cada encontro com outros corpos, a cada afeto produzido. Isto acontece na pesquisa.

E, quando me perco do território, me desterritorializo na linha de fuga dos afetos, percorrendo o primeiro movimento. Esta linha sempre se entranha na pesquisa porque me debruço justamente sobre o encontro de corpos: de minha palhaça, Bilazinha da Mamãe, com o caos da rua. No encontro, são ainda produzidos outros corpos e os afetos resultantes desse eterno “encontrar-se” me atravessam, como o fazem com o espaço urbano e com esta pesquisa.

Para realizar a pesquisa, optei pela cartografia, não apenas como método, mas como o  exercício de um olhar e compreender meu objeto de estudo em sua complexidade. Encontrei na cartografia uma forma de produzir conhecimento científico, a partir de minhas marcas, na qual posso lidar com as ambiguidades. O mapa a ser traçado registra os processos decorrentes da experiência vivida, permitindo-se modificar, reconfigurar, tal como pontuam Deleuze e Guattari (1995, p.22):

 O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-lo como obra de arte, construí-lo como uma ação política ou como uma meditação. […] Um mapa tem múltiplas entradas contrariamente ao decalque que volta sempre ‘ao mesmo’ (DELEUZE, GUATTARI, 1995, p.22).

 

Avalio que o pensamento cartográfico favorece a abordagem deste objeto, na medida em que me auxilia a perceber não somente o visível, o que está imediatamente diante de mim, expandindo meu olhar para os fluxos invisíveis que se estabelecem nessa relação. Por isso, nesta modalidade de pesquisa, há lugar para o que escapa ao previsto e determinado.

Sobre o alargamento de meu olhar, de que tratei anteriormente, dialogo com Rolnik (1993), que explica essa expansão como uma violência vivida no corpo, resultado de um rompimento em seu equilíbrio, em seus contornos atuais, ao conectar-se com outros fluxos, os quais esboçam novas composições. Me vejo, assim, a exigência de criar um novo corpo, no que diz respeito a minha existência, modo de pensar, agir, sentir, que acolha essas marcas, esses estados inéditos produzidos em mim. Vivo este constante refazer quando vou para a rua de palhaça. Meu corpo de palhaça, em devir, sofre marcas evidentes e a experiência dessa composição me leva ao mapa para tentar alguma compreensão.

 “O pensamento é uma espécie de cartografia conceitual cuja matéria-prima são as marcas e que funciona como universo de referência dos modos de existência que vamos criando, figuras de um devir” (Rolnik, 1993).

Minha metodologia aceita as fugas e, portanto, compreende que tudo modifica-se, movimenta-se, improvisa. Um devir do campo social, a  partir do qual a realidade pode ser outra. “De repente é como se nada tivesse mudado e, no entanto, tudo mudou” (ROLNIK, 2007, p. 50). Eu sou outra, a rua é outra.

Enquanto me territorializo e desterritorializo, me encontro na angústia da segunda linha, ambígua. Por vezes, minha escrita vai da invisível e inconsciente produção de afetos, para a visível e consciente produção de territórios. De minhas intensidades na rua, para o enquandramento nos cortes e segmentações. Em outros momentos, faz o caminho inverso, parte do roteiro para a improvisão, me contamino pelas intensidades de ser palhaça no encontro com os corpos. Do território, para os afetos escapando. Difícil saber de onde parto e aonde chego. Estou no meio.