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Três linhas que me atravessam

22 jul

Esta pesquisa é costurada com três linhas. Parece absurdo, mas deparei-me com esta realidade através do contato com Suely Rolnik, em seu livro “Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo”. Viajem comigo e vejam se entendem.

Essas três linhas às vezes tornam-se duas, outras uma só. Sempre em movimento. Meu roteiro de ações ou metodologia é assim, cheio de reentrâncias, devires, afetos. Meu desejo funcionando em plenitude, provocando não um caos, mas uma fabricação incansável de mundo.

Quando falo em linhas, me remeto a descrição do traçado do desejo, de Rolnik. Desejo é movimento de afeto e a simulação desses afetos em máscaras, que os corporifica, territorializa. Neste processo, três são as linhas abstratas de movimento. A primeira, invisível e inconsciente, é a linha dos afetos, aqueles resultantes do encontro entre dois corpos; um fluxo, que não cessa de ser produzido. A segunda, bipartide, faz um movimento de vaivém, que territorializa (da produção de afetos para a composição de territórios) e desterritorializa (dos territórios para o invisível e inconsciente dos afetos escapando). A terceira linha é a dos territórios, finita, visível e consciente, que cria diretrizes para a consciência operar os afetos.

Minha metodologia é, a primeira vista, uma linha visível, um território delineado por um corpo de afetos que, no esforço de sistematização e cientificidade, necessitam ser organizados. Uma constelação funcional, que me permite olhar a experiência enquanto pesquisadora. O próprio trabalho como um todo designa um território a ser observado, nunca a totalidade da experiência. Isto me aquieta, porque alivia o medo do reducionismo. Meu roteiro é finito, tal como a terceria linha, e, por isso mesmo, é bom lembrar que sempre escaparão afetos aos território, o que, a qualquer hora, pode decretar o seu fim.

A cientificidade da pesquisa me exigiu a dureza da terceira linha, a segmentação, a operacionalização de cortes. Preciso dizer que sofro com isto, mas reconheço como presença inevitável e necessária. Mesmo assim, as outras linhas continuam por aqui.

Quando me perco do território, recaio na linha de fuga dos afetos, percorrendo o primeiro movimento. Esta linha sempre se entranha na pesquisa porque me debruço justamente sobre o encontro de corpos: de minha palhaça, Bilazinha da Mamãe, com o caos da rua. No encontro, são ainda produzidos outros corpos e os afetos resultantes desse eterno “encontrar-se” me atravessam, como o fazem com o espaço urbano e com esta pesquisa.

Minha metodologia aceita as fugas e, portanto, compreende que tudo modifica-se, movimenta-se, improvisa. Um devir do campo social, a  partir do qual a realidade pode ser outra. “De repente é como se nada tivesse mudado e, no entanto, tudo mudou” (ROLNIK, 2007, p. 50).

Enquanto me territorializo e desterritorializo, me encontro na angústia da segunda linha, ambígua. Por vezes, minha escrita vai da invisível e inconsciente produção de afetos, para a visível e consciente produção de territórios. De minhas intensidades na rua, para o enquandramento nos cortes e segmentações. Em outros momentos, faz o caminho inverso, parte do roteiro para a improvisão, me contamino pelas intensidades de ser palhaça no encontro com os corpos. Do território, para os afetos escapando. Difícil saber de onde parto e aonde chego. Estou no meio, em rizoma.

Linhas

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