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Um ser que não se governa

16 jan

Durante os meses em que minha pesquisa esteve caminhando a passos bem lentos (não posso dizer que parou….pulsava em mim, inspirava leituras e jamais deixou de ser minha paixão), tive uma grata companhia. Claudine Haroche, em “A Dimensão Sensível” (confiram meus fichamentos, ela anda por lá), com quem dialoguei vários dias e encontrei o mote para uma discussão que desejo compartilhar por aqui. É importante dizer que Haroche foi um achado de Wlad Lima, minha orientadora incansável, que emprestou-me o livro pouco antes de eu ter que me ausentar. Obrigada, Wlad!

Eis o que encontrei em Haroche: O PALHAÇO NÃO SE GOVERNA.

Haroche (2008) não teoriza sobre o teatro, tampouco sobre palhaços. Sua investigação interdisciplinar repousa sobre as formas de sentir no ocidente, a partir da análise de momentos históricos importantes, desde a sociedade de corte da Idade Média até a contemporaneidade. No entanto, Wlad e eu conseguimos encontrar aproximações com meu objeto de estudo. 

Um dos temas que permeiam sua discussão, a partir da análise das sociedades francesa e anglo-saxã nos séculos XVI e XVII, é a questão da civilidade e do governo de si.

“O governo de si é um componente essencial do poder, o mais seguro entrave à desordem, um fundamento do governo dos outros, o complemento necessário da lei.” (HAROUCHE, 2008, p.25). Em outras palavras, o corpo é um operador político e social, que, quanto mais se modera, demonstra se governar, se disciplinar, contribui para a manutenção da ordem e se apropria do poder sobre os outros.

A idéia de superioridade, poder, esteve associada nas sociedades de corte a um corpo disciplinado, uma postura de moderação. Ainda é possível perceber esta concepção hoje em dia, sob novas formas e justificativas, embora permaneça a premissa de que, a partir do controle de si, é possível controlar o outro. Controlar-se é, ainda, uma forma de defesa, de delimitação de si e suposto respeito ao outro.

“A postura, que estrutura, em profundidade, certo tipo de economia psíquica, certa forma de subjetividade, exalta um modelo fundamental de representação do sujeito. Ela é, sem dúvida, um dos elementos essenciais de uma antropologia histórica e política das formas do laço social nas sociedades ocidentais. O próprio termo elucida determinados modos de funcionamento cruciais. O que é, de fato, a ‘postura’? Uma capacidade, no sentido próprio da palavra: o corpo é um receptáculo fechado, ameaçado do interior e do exterior, pois o que põe em risco a ‘postura’ são os arroubos, os excessos, o que não se controla, o que não se governa em si próprio, mas também o ingovernável no outro e ainda as trocas, percebidas como uma ameaça à integridade, à identidade, à virtude de cada um” (HAROCHE, 2008, p. 34-35) 

Compreendo que o imperativo da moderação e delimitação de si está presente no cotidiano, em nossas relações sociais e formação subjetiva. Aprendemos a conter nossos gestos, nos escondemos por detrás de uma máscara social, procurando esconder nossas extravagâncias, nosso risível. Não convém ser sincero, abrir-se às relações com os outros, porque nos parece perigoso. Criamos uma couraça e aprendemos a desprezar e inferiorizar os gestos relapsos, os excessos. Este princípio eu conheci a vida inteira. Quando comecei a descobrir minha palhaça, entrei em contato com seu oposto.

Se o corpo que se governa é um entrave à desordem, o palhaço e seus movimentos livres, desmedidos, sem amarras sociais, é um ser que não se governa, não exerce poder sobre os outros. Sua lógica é justamente outra: a sinceridade, a ingenuidade, aquilo que temos todos nós, humanos, e nos esforçamos a vida inteira por esconder. Temos fraquezas e excessos, que o palhaço mostra sem medo, sem contenção, como um bufão. Ao invés de defender-se do outro, ele depende do público, permite e deseja que riam dele, joga e busca se relacionar o tempo inteiro.

“O clown é aquele que ‘faz fiasco’, que fracassa em seu número e, a partir daí, põe o espectador em estado de superioridade. Por esse insucesso, ele desvela sua natureza humana profunda que nos emociona e nos faz rir” (LECOQ, 2003, p.216).

O palhaço é ridículo, é um perdedor. E é perdendo que vence. Marton Maués (2004) explica que o clown é um ser que se mostra sem medo, se expõe da maneira como é, ingênuo, grotesco, engraçado, lírico, permitindo-se ver pelos fracassos e defeitos, para que os outros riam de seu ridículo. Na verdade, tudo o que um palhaço quer é o riso dos outros. Castro (2005) o define de forma simples, como a figura cômica por excelência, alguém de quem esperamos rir. E rimos porque nos identificamos com a humanidade desse ser, com o ridículo que há em todos nós.

Em um mundo onde parecer belo e bem sucedido é uma meta importante, onde exercer poder sobre os outros, ganhar dinheiro e ter subordinados é uma virtude, ser grotesco, excêntrico, sincero, é uma loucura. Essa loucura, no entanto, nos ensina sobre a vida. Precisamos dela, eu preciso dela.

O palhaço que não se governa, quando vai à rua, “palco dos medíocres”, como define João do Rio, torna-se, também, um medíocre. Assumindo sua inferioridade, desloca os outros para a posição de igual, transformando a ordem e o imaginário social. 

Um deleite para mim, que deixo para vocês degustarem…

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Um palhaço e suas bobagens…

24 maio

Bobagens. É o que faz o palhaço, um ser que se ocupa do inútil, do desnecessário. E nós acabamos por enveredar em seu caminho, e perder nosso tempo também com…bobagens.

E por que alguém pararia em plena rua para se ocupar de bobagens? Por que as pessoas dão atenção para um ser estranho, vestido com roupas espalhafatosas, às vezes maquiado, às vezes não?

Quando paramos para rir deles, na verdade rimos de nós mesmos, de nossas mazelas, ali expostas. De tudo o que escondemos, da ordem que criamos, da quebra de códigos. E quantos códigos há na rua! Se não prestamos atenção, eles passam desapercebidos. Mas quando um artista de rua se joga nessa arena, descobre que está cercado. De diversidades, de forças de trabalho, de vulnerabilidade social, de resistências, de opressões, de destituição do acesso à cultura e da promoção deste acesso através de sua arte.

Achei este vídeo no youtube. Um palhaço fantástico enfrentando de peito aberto essa realidade múltipla, através de…bobagens. Observem os olhares ao redor, as pessoas que param e ficam, as crianças de uniforme escolar e o trânsito lá atrás. Vida que corre e pára, só para ver um palhaço.

Bobos é como somos em nosso estado natural e sérios é algo que temos de ser até podermos ser bobos outra vez.

(Mike Myers)

A Rede Brasileira de Teatro de Rua

19 maio

Conheci a Rede Brasileira de Teatro de Rua através de um revista, “A Rua, publicação carioca sobre o teatro de rua que acontece ali. Vinculada à rede, a revista abriu meus olhos para uma realidade: estou misturada a uma realidade muito maior que o espaço urbano de Belém.

Trata-se da realidade de vários artistas de rua que se compreendem enquanto classe e experimentam a democracia e as tensões desse lócus na pele. Quando batem na pele, os afetos da rua geram espetáculos, discussões, encontros, protestos. Um mundo, do qual faço parte, mas não sabia. Quem pisa na rua para fazer arte deve saber que está misturado. E somos muitos.

A Rede está sendo fundamental para mim, na pesquisa. Reforça minha identidade e me ajuda a compreender para onde vou, de onde venho. Expõe as mazelas, muitas mazelas, e deixa às claras a beleza e a paixão dos espaços urbanos onde se pratica teatro fora do edifício teatral.

Aqui vai o link para a rede, democrática, como nem sempre a rua consegue ser, já adicionada nos meus links ali do lado: http://teatroderua.ning.com

Bilazinha pela rua

Minha palhaça na rua

Pela rua, virando lata, eu sou mais eu, mais gata

18 maio

 
Uma palhaça em pleno mercado!

Bilazinha se divertindo pela feira

 

Com vocês, as peripécias de um palhaça que deseja

 misturar-se, no seu picadeiro a céu aberto

Estava inquieta. A rua me chamava. Depois de meses debruçada sobre a mesa, mergulhada em leituras e fichamentos, sentia falta do campo, de estar na rua. Conheci teorias novas, gente que fala sobre o palhaço, sobre a rua, sobre os espaços. Mas estar lá é diferente. Meus sentimentos se misturam à teoria. Além disso, a realidade do espaço urbano de Belém, onde acontece minha pesquisa, é diversa daquela de onde partem outros pesquisadores de outras cidades. Bem como a realidade que vêem meus olhos de palhaça jamais será vista por outras pessoas. Talvez haja semelhanças, mas sempre haverá a subjetividade de um pesquisador, inserido em sua própria realidade sóciocultural. 

Assim, em pleno sábado, às vésperas do dia das mães, Bilazinha da Mamãe foi flanar (ou vagabundar) pelo Ver-O-Peso, famosa feira popular de Belém. E por lá colecionou impressões e fotos (mais de 300, na verdade), que contam o início de minha pesquisa de campo. Postei algumas fotos abaixo, mas, como são muitas, só seria possível publicá-las em um álbum online, que pode ser acessado lá em baixo, na lista de links chamada “Meus álbuns”, a qual leva você às minhas fotos no Picasa. Assim que descobrir como fazer isso de outra forma, juro que farei…rsrs  

Enquanto isso, as impressões da estréia registro aqui, como diário de campo. 

DATA: 08/05/2010. 

HORA: De 10 às 12h. 

LOCAL: Feira do Ver-O-Peso. 

 A experiência de ir de carro não estava programada, eu havia pensado em pegar um ônibus e fazer uma espécie de “aquecimento”, já que estava afastada da rua havia alguns meses. O carro, no entanto, foi um espaço rico, dentro das especificidades. No banco de trás, postei minha cabeça para fora, apoiando os braços na janela, enquanto lançava meu olhar de palhaça sobre o espaço urbano. Considerei-o bastante atraente. Exerce sobre a palhaça uma força atrativa, muitas pessoas, carros, prédios, parece haver diversidade de coisas a serem exploradas, observadas, como se fosse uma eterna novidade. 

  

Me permiti flanar, mas o flaneur-palhaço não é convencional. Notei que há uma atitude especial nesse caso. Bilazinha da Mamãe é afeita ao contato, ela se doa a quem quer que permita. Ela não somente observa, ela se envolve, participa, quer alterar. Tem a ingenuidade do flaneur, seu descompromisso, estado de alerta, olhar contemplativo. No entanto, precisa necessariamente se envolver e acaba por “bagunçar” o que está acontecendo.

 

Foi por isso, eu creio, que, com a cabeça para fora da janela do carro, ela chama as pessoas, deseja-lhes “bom dia” e trava diálogos em alto e bom som, para que olhem para ela, que retribuam seu olhar. No aumento da voz da palhaça, penso que pode haver uma tentativa de reduzir a distância, torná-la íntima ou pessoal, ao invés de social e pública, mais comum no contexto do carro. 

Algumas pessoas dentro dos carros somente acenavam, respondendo ao seu olhar. Essa via de comunicação pelo olhar é importante para o palhaço, eu já havia percebido isso lendo Hall. Ela atinge quem está perto, mas também quem está distante. O palhaço vê alguém longe e mantém seu olhar, até que esse alguém note aquela figura estranha, perigosamente com a cabeça para fora do carro, cantando. Dessa comunicação visual, acabam resultando acenos e sorrisos, de quem está na calçada e de quem circula de carro, perto ou longe. 

 Foi prazeroso subverter a ordem do trânsito! Muitos carros buzinaram, eles queriam responder ao olhar de Bilazinha. As buzinas confundiam outros carros, chamavam atenção de outras pessoas para olhar também e certamente não estavam sendo usadas para os fins convencionais esperados para o trânsito por ali, naquela manhã. 

Já no Ver-O-Peso, Bilazinha entrou em uma loja de roupas, meio sem querer. Chamou sua atenção uma arara com camisolas estampadas, que ela se deteve a explorar e comentar sobre seu desejo de usá-las em uma festa. Ela alegou que eram confortáveis e bastante coloridas, sem direcionar seus comentários a ninguém, embora trocasse olhares com os transeuntes. As pessoas não paravam. A reação mais comum era observá-la a distância, diante do absurdo de alguém querer usar camisolas para ir à festa. Elas riam dos comentários acerca das roupas e procuravam manter-se afastadas. Quem adentrava na loja, passava de largo, fingindo não estar vendo o que ela fazia, embora a palhaça o fizesse em alto e bom som. 

Ela, então, adiantou-se um pouco, para conversar com uma dupla de rapazes que escolhia blusas. Um deles escolhia e mostrava para o outro, que dizia se aprovava ou não. Ela intencionava ajudar na escolha e passou a opinar também sobre as blusas. Constrangido, com a aproximação em um momento de tanta intimidade, o rapaz sorria, mas mantinha a cabeça baixa, sem trocar olhares. Conforme ela se aproximava e demonstrava mais interesse por suas escolhas, ele mantinha menos contato com o olhar e diminuía o riso, o que me fez crer que era hora de parar. Ela despediu-se, desejando boa sorte com a escolha.

 

Bilazinha seguiu para um brechó, ao lado. As pessoas lá pareciam mais afeitas ao contato. Houve um estranhamento inicial, em que a distância ao redor da palhaça era grande, de forma a mantê-la isolada no centro da loja. As pessoas, no entanto, me pareceram estar aguardando um atitude dela, alguns sorriam, como se soubessem que algo aconteceria. Eu senti medo, não sabia ao certo o que fazer. Então me detive a manter o comportamento de todos, escolher roupas e, como a palhaça gosta de estabelecer contato e bagunçar a ordem ao seu redor, era impossível não opinar sobre as escolhas alheias. 

Duas moças estabeleceram diálogo, primeiro a distância. Bilazinha conversava amenidades, tecendo comentários sobre peças de roupa. Uma delas, que vou chamar de “Maria”, olhava e sorria, enquanto respondia. A outra, apelidada agora de “Joana”, mantinha-se de costas, rindo. Maria disse-me que Joana tinha medo de palhaços e por isso se escondia. Resolvi respeitar a distância que mantinha em virtude disso. No entanto, essa distância diminuiu naturalmente. Enquanto eu conversava com Maria, Joana aproximou-se, embora sempre de cabeça baixa, escolhendo roupas. 

A palhaça perguntava se os rapazes com quem elas namoravam costumavam usar roupas íntimas. Joana, então, respondeu que não tinha namorado e estava aguardando por um. A palhaça, então, quis saber se ela lhe contaria sobre as roupas íntimas dele. Joana, então, disse que só saberia disso depois de casar. Bilazinha lhe ofereceu como namorado um senhor que escolhia roupas a alguns metros de distância. Sempre rindo, assim, ela compartilhou alguns desejos seus com a palhaça, compartilhando um pouco de sua intimidade. Senti-me lisonjeada com a generosidade de Joana, que se permitiu aproximar fisicamente e estabelecer com a palhaça, mesmo sentindo medo. 

Os melhores momentos, no entanto, foram na feira mesmo, no meio da multidão característica de lá. Os ônibus pararam para que ela atravessasse a rua e senti que, misturada a tanta confusão de feira, Bilazinha fazia parte daquele universo. O Ver-O-Peso pareceu maior e mais interessante, embora um pouco assustador. Constantemente, sentia medo de que sofresse alguma violência, ou de ser rejeitada. Isto porque creio que é um lugar de grande circulação, de muitos imaginários, onde muita gente tenta chamar atenção. Artistas de rua, vendedores, ladrões, fiscais, barqueiros. Um cenário perfeito para uma palhaça que deseja se misturar, mas que oferece riscos.

 

Nas bancas de comida, ela sentou-se para conversar e comentar sobre o famoso peixe frito com açaí, que alguns consumiam na hora. Normalmente, quando vou ao Ver-O-Peso, não me aproximo muito dessas bancas, a não ser que deseje consumir, pois inevitavelmente, o cheiro do peixe fica entranhado nas roupas e no cabelo. Como Bilazinha, no entanto, ficar com cheiro de peixe não era um problema. Ela sentou-se ao lado de três homens, que trabalhavam no mercado, e faziam lá sua refeição. Pela primeiro vez, minha palhaça aproximou-se de um gari, que ria de seus comentários, embora evitasse manter contato visual, o que o fez após certo tempo, quando acredito que ganhei sua confiança e atenção. O que estava sentado mais próximo, respondia verbalmente às minhas provocações, ria e trocava olhares com a palhaça. A este e ao dono da banca que também participou da breve conversa clownesca, Bilazinha doou um pedaço de tecido que leva em sua pequena maleta. 

Saindo de lá, encontrei-me com outro artista de rua, que se apresentava no local. Bastante típico do Ver-O-Peso e de muitos lugares públicos de Belém, ele também compunha aquela paisagem, como uma parte do rizoma. A palhaça admirou-se dele porque o viu como igual, mambembe como ela. No entanto, o artista tinha um ar mais severo, e também provocou-me admiração e respeito, já que sei de sua longa experiência na rua. Pela primeira vez, estive de palhaça ao lado dele. Nas outras vezes, era como os outros que perambulavam por ali: observava-o e oferecia uma moeda, para ver sua performance, enfiando facas no nariz. Desta vez, Bilazinha ofereceu um tecido, um pedaço dela, reconhecendo, nele, ela mesma. 

Sentada em um banco, ali próximo, ela atrapalhou a briga de um casal, que afastou-se para continuar a discussão, sem que a palhaça estivesse olhando. Também interferiu na concentração de um rapaz, que esforçava-se para retirar alguns embrulhos de seu carro. Ele ria e parecia constrangido com os xavecos de Bilazinha, deixando os embrulhos de lado. 

Ela prosseguiu para interagir com um sujeito que anunciava o barco prestes a sair, com destino a Barcarena. Ele gesticulava, chamava as pessoas, dizia o valr da passagem. Tanto movimento atraiu a atenção da palhaça, que passou a observá-lo. Notei, com esta situação, que o desejo de Bilazinha é manter distância íntima. Ela tenta atraí-los para este nível de proximidade. Aquele vendedor foi o primeiro esta manhã a permitir tal contato. A esta distância, o toque e a vocalização da palhaça deixavam-no constrangido. Enquanto o jogo da palhaça funcionava a distância íntima com o vendedor, havia um público atrás e por cima da rampa que observava tudo o que acontecia e ria. 

A seguir, Bilazinha seguiu para o barco aportado mais adiante, prestes a sair. A pessoa responsável por pegar as passagens permitiu que ela passasse, sem apresentar o papel. Fiquei me perguntando por que ele deu entrada para o palhaço, tal como já experimentei com cobradores de ônibus, que muitas vezes permitem Bilazinha passar sem pagar passagem. Que encanto é esse que se instaura e se sobrepõe à ordem natural? 

Ela, então, prosseguiu para dentro do barco, onde fez pequenas homenagens às mães presentes, em virtude do dia das mães, doando alguns de seus retalhos para elas. No local, a interação foi tímida. O barco, como o ônibus, é um local onde as pessoas pouco se olham e a ordem parece ser não interagir. Assim, muitos olhares e risos ali permaneciam discretos, quase escondidos. Senti-me diante do desafio de tentar atrair a atenção e estabelecer contato, naquele ambiente desagregador. Não sei se alcancei a todos, penso até que não. Fiquei constrangida e senti que as pessoas também se intimidaram, tamanha a proximidade da palhaça, não somente fisicamente, mas também pelas atitudes que mantém, sempre procurando estar mais perto. Eu poderia ter brincado mais no local. 

Na saída do barco, estabeleci interação com distâncias maiores. Um homem sentado sobre o barco, a cerca de dois metros e meio; outros, reunidos em outra embarcação, mais distantes; além das pessoas que observavam tudo de longe, acima. Estas pessoas mantinham contato apenas com o olhar e risos. Já aqueles sobre os barcos, pareciam mais a vontade com a distância e respondiam ativamente aos xavecos da palhaça, sem, no entanto, demonstrar vontade de aproximar-se mais. Notei que essa era a distância de conforto para eles, na qual sentiam-se a vontade para interagir comigo. 

Se eu não estivesse de palhaça, jamais teria permanecido tanto tempo naquele lugar, fora do barco, cercada por aqueles homens. Acho que sentiria medo, ficaria constrangida, sentindo-me desprotegida, alvo fácil de cantadas ou olhares indesejáveis. Bilazinha, no entanto, estava mais a vontade fora que dentro da embarcação. 

Após este momento, a palhaça esteve, ainda, com vendedores, feirantes e outras pessoas que normalmente passam desapercebidas por mim. Tal como ocorreu antes, sentia que esses sujeitos ganhavam minha atenção e a atitude de Bilazinha diante deles, de total interesse e desejo de proximidade, é diferente de minha atitude cotidiana. 

Dois homens conversavam e permitiram que ela participasse, estabelecendo diálogo verbal, toque e me presenteando com risos. A participação dela na ação que as pessoas praticavam, no entanto, nem sempre era harmônica. Um homem e sua esposa degustavam peixe frito com açaí, quando a palhaça aproximou-se, como de costume. Inicialmente, ele fingia não ligar para minha presença, enquanto a esposa somente sorriu. A seguir, com a voz rígida, ele disse a Bilazinha que se afastasse, pois aquele era o momento da sua refeição. Respeitei o desejo, mesmo porque senti que estava prestes a agredir-me. 

Dado momento, comecei a ouvir o som de uma pequena banda que tocava, ao ritmo de marchinha, hinos de clubes de futebol regionais. Parecia feita para mim. A palhaça não teve dúvidas, aproximou-se a deixou-se levar pela sensação de que a banda tocava para ela. O ruído da música misturava-se ao do trânsito, aos gritos dos feirantes, às conversas e todos os infindáveis sons da feira que chegavam ao meu ouvido e formavam uma sonoridade à qual era impossível não reagir. E Bilazinha saiu dançando, ao som daquela banda, daquela feira, celebrando o circo que parecia ter sido armado só para ela ali, com direito a platéia que se reunia ao redor da banda para apreciá-la dançar desajeitada. 

De perto da banda, segui para a parada de ônibus, onde a palhaça quebrou o “código” invisível que se estabelece nesses lugares. Explico. Normalmente, as pessoas permanecem estáticas, de pé, observando cada ônibus que passa, sem falar alto ou olhar umas para as outras. A palhaça agiu como sentiu vontade. Tratou de comunicar-se com todos e sentou-se no asfalto quente, de cansada que estava. O sol, a pino. Um vendedor de verduras cuja banca ficava próxima, espontaneamente chegou perto e ofereceu-me a sombra de sua sombrinha. Bilazinha sentiu-se lisonjeada. A atitude inusitada do vendedor, na tentativa de aliviar meu calor, também quebrava as “regras” da parada, tal como eu fazia. 

 Uma mulher doou-me um de seus bombons e Bilazinha mostrou enorme gratidão, guardando em sua bolsa. Outro, também preocupado com o calor que fazia, ofereceu à palhaça uma garrafa de água mineral. Atitudes como esta me fazem perceber que as pessoas compreendiam que havia alguém trabalhando ali. Senti-me reconhecida como artista de rua e aprovada por eles. O gesto de doar algo para a palhaça me soou, além da aprovação, como uma retribuição do que eu lhes doava naquela manhã. A rua parecia me ajudar nessa hora e o calor do asfalto dava lugar ao gosto doce do bombom, ao refresco da sombra e da água. 

Segui, lisonjeada. Outro som novamente me atraiu. Desta vez, um vendedor de pequenas cornetas, ornadas com motivos da copa fez soar seu brinquedo no momento em que a palhaça passava, causando-lhe um susto. Percebi a oportunidade de um jogo interessante ali e, como de fato me sentia atraída pelo objeto, mantive a atitude de assustar-me com o som, que o vendedor repetia. Este foi nosso diálogo. Ele ria e permitiu que ela lhe tocasse, fazendo novamente o ruído quando isto acontecia. Sem perceber, criou uma excelente performance de clown, ali, na simplicidade da rua. E eu me vi aprendendo a performar com um mambembe mais experiente que eu. 

O último lugar da feira onde estive foi junto às vendedoras de ervas, local procurado por Bilazinha para conhecer e ensinar truques sobre como conquistar namorados. As vendedoras receberam-na igualmente generosas, oferecendo presentes, como uma essência de patichouli, que uma delas insistiu para que eu trouxesse. 

Outra vendedora, após um divertido diálogo com a palhaça sobre produtos que poderiam ajudá-la a conquistar mais rápido os homens, ofereceu-lhe um punhado de ervas que iriam “abrir seus caminhos”, ou seja, proporcionar-lhe sucesso e ascensão. As ervas, tal como o patichouli, ficaram guardados na maleta da palhaça e lá deverão permanecer, misturando-se aos seus retalhos. 

O momento mais marcante neste local, no entanto, aconteceu com o depoimento espontâneo de outra vendedora de ervas. Ela abraçou a palhaça e passou a dizer o seguinte: “Isso, minha filha. Lugar de palhaço é na rua. Palhaço tem que ir pra rua. Hoje em dia criança só vê violência, só vê besteira na rua. Quando vê palhaço tem alegria, palhaço leva alegria, pra animar as crianças. E hoje as crianças, a gente não encontra, a gente pergunta ‘você conhece um palhaço?’, aí ‘como é um palhaço? Eu não sei’. Porque o palhaço de hoje em dia só é briga. Então, vamos colocar nossos palhaços pra fora… Palhaço tem que existir pra trazer alegria pras crianças!”. Em seu animado depoimento, compreendi que, de fato, estava afetando aquele lugar. 

Após esse depoimento, Bilazinha interagiu com o homem, definido por alguém próximo como “sério” e difícil de fazer rir. Dialogando, ele comentou sobre os sapatos extravangantes dela. A palhaça, então, ofereceu-lhe um lado para calçar e ele o fez, estabelecendo o contato mais próximo do dia. Além da proximidade de corpos, ele vestiu um de seus trajes, se permitiu ser ridículo e excêntrico como ela, contrapondo sua imagem habitual. Seu movimento foi semelhante ao da própria feira naquela manhã, que rompeu sua imagem habitual, para permitir-se rir, brincar e ocupar seu tempo com as bobagens de uma palhaça. 

Um ponto de partida ou uma rede de articulações no meio?

26 mar

Artista de rua

De onde parte este blog? De multiplicidades. Eu o criei para comunicar meu processo de pesquisa acerca da relação de minha palhaça, Bilazinha da Mamãe, com a rua. Foi quando descobri que este não é um ponto, mas uma intrincada rede de articulação. Também não é a partida. Eu diria que é o meio.

Conforme avanço na pesquisa, hoje em fase de leituras e amadurecimento para voltar à rua como pesquisadora, descubro o amplo universo em que mergulho. Em primeiro lugar, porque minha paixão, palhaços, são figuras instigantes e abordá-los academicamente é, para mim, novidade e desafio. Ora, estou acostumada a agir, usar meu nariz vermelho e minhas roupas espalhafatosas de Bilazinha da Mamãe. Reflexão e ação caminham juntas, sempre acreditei nisto e, de fato, minha ação de palhaça sempre foi acompanhada de muitas inquietações e questionamentos que eu mesma me faço. Porém, o tom acadêmico é estranhíssimo. Como falar seriamente sobre um ser que não se enquadra, subverte a ordem e ocupa-se de bobagens? Eis o desafio.

Em segundo lugar, tenho a rua, cuja extensão é cada vez maior para mim. Não se trata apenas de mais um lugar onde o artista atua, onde eu gosto de estar vestida de palhaça. Descubro que a rua é um lugar de tensões, de circulação, heterogeneidades. Tenho compreendido cada uma destas palavras de maneira muito especial, através de leituras, mas também da participação na rede de Teatro de Rua no Brasil e de experiências pessoais. A rede, conheci através da revista da Rede Estadual de Teatro de Rua do Rio de Janeiro que chegou às minhas mãos aqui em Belém do Pará, onde descobri o email do grupo. Aos interessados em descobrir, como eu, que a rua e nós, artistas que nela atuam, estamos intrincados em discussões mais amplas do que imagiamos, eu recomendo: teatroderuanobrasil@grupos.com.br.

Este blog passa a funcionar de fato a partir de hoje (espero conseguir lidar melhor com os recursos wordpress). Meu desejo é multiplicar, articular conhecimentos, discussões e ações com outros artistas de rua, palhaços e curiosos. Ao lado, vou disponibilizar os sites e blogs por onde vou passeando e descobrindo que estabelecem ligação comigo e com nosso fazer artístico.